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Útil paisagem


Depois daquele verão quase sem sol, a mulher estava sentindo falta de praia. Olhou pela janela do escritório e por entre os telhados dos prédios e o emaranhado de antenas avistou, lá longe, uma pontinha de mar. É engraçado, pensou. Nós, cariocas, às vezes temos uma tendência a desprezar um pouco toda essa beleza que nos cerca. É que como se pensássemos: ah, a paisagem está sempre ali, ela pode esperar. Mas não deveria ser assim.

A praia, por exemplo. A mulher tinha de admitir que pouco ia à praia, no Rio. Sábado e domingo era cheia demais. Preferia caminhar pelo calçadão. Nos dias de semana, estava trabalhando. Praia, mesmo, para valer, só quando ia Búzios ou a Angra. No Rio, quase nunca. Deu um suspiro, olhando aquela nesguinha de mar lá no horizonte. E se desse uma fugida? Se largasse tudo, desse um pulo em casa e fosse dar um mergulho? Por que não? Fora um verão de tão pouco sol, de tão pouco calor. A verdade é que estava sentindo falta da praia, do contato com a areia, com o mar.

Tomada a decisão, saiu. Adiantou uma coisa e outra, deu uma desculpa e foi até em casa. Pegou o biquíni lá no fundo da gaveta, com o elástico já meio frouxo. Estava precisando comprar um novo. Nem biquíni comprara nesse último verão. Um fiasco para quem se criara na beira do mar, catando tatuí e nadando até lá fora para tentar enxergar o Pão de Açúcar. Enfiou a saída de praia, os chinelos, e saiu.

Assim que deixou a calçada e pisou na grama rala junto a um quiosque, foi logo sentindo um cheiro bom, que identificou imediatamente. Era o cheiro daquela planta rasteira que cresce na areia e dá flores lilases. Nunca soube seu nome. Mas tinha um cheiro peculiar, era uma marca dessa praia que conhecia tão bem, desde criança. Suspirou, satisfeita, e seguiu em frente, rumo à areia quente.

Atravessou aquele trecho largo de areia seca, os olhos já fixos no mar. Estava uma beleza, com um azul de Caribe, e como o dia amanhecera nublado - o sol surgindo de repente, no começo da tarde - a areia não tinha quase ninguém.

Quando chegou bem perto do mar, a mulher fez um montinho com a saída de praia e os chinelos - e mergulhou. A temperatura da água também estava perfeita. Meu Deus, tornou a pensar, por que nós, cariocas, não fazemos isso mais vezes? Apreciar toda essa paisagem que nos cerca é uma questão de utilidade pública. Isso não pode ser desperdiçado, precisa ser uma missão diária. Assim como na Espanha tudo pára para a sesta, deveria haver entre nós o costume de passar meia hora, uma hora por dia apreciando a paisagem. Se possível, na praia. A qualidade de vida de todos ia melhorar muito.


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[25/ABR/2004]


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