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Na feira


A mulher respirou fundo, sentindo o cheiro das verduras. Não é à toa que costumamos chamar de ''cheiro-verde'' as salsas e as cebolinhas, pensou. Seus odores, assim como o do coentro, são tão ativos que é impossível passar por uma barraca de verdura sem respirar fundo. Sorriu. Gostava das feiras. Apesar da sujeira e da confusão, gostava. Apesar também da própria timidez, que a fazia encolher-se toda quando algum feirante mais atrevido se dirigia a ela com excessiva desenvoltura. Andou mais um pouco, parou à frente de uma barraca de frutas. Ficou olhando as maçãs e as mangas, mais vermelhas do que nunca. Os caquis. Os figos. Os mamões. As frutas-de-conde, que na terra de sua mãe eram chamadas pinhas.

Outro dia, lembrou-se, lera sobre um movimento para mudar uma feira de lugar. Sabia o que era morar em rua de feira e ainda se lembrava do quanto estranhara ao se mudar para lá. As vozes, ainda de madrugada, o barulho das caixas sendo empilhadas. Ficara noites e noites sem dormir. Mas depois se acostumara. Preferia que as feiras não mudassem nunca de lugar. Um dia fizera uma viagem à Alemanha e ao chegar a uma cidadezinha do interior, no noroeste do país, dera com uma feira armada na praça principal. O guia dissera casualmente que aquela feira se realizava ali, naquela praça, havia 600 anos. A mulher ficara espantada. A feira era mais velha do que o seu país.

Continuou caminhando. Adiante, passou por uma barraca cheia de ervas, plantas, especiarias, com sacos de alho e pimentas coloridas em pratinhos de papelão. Em meio àquela miscelânia enxergou uns coquinhos castanhos, que não reconheceu. Chegou mais perto e pegou um deles, examinando-o com mais atenção. E de repente lhe veio à mente a memória de um gosto. Um gosto que estava ligado àquele aroma, um gosto de férias de verão, um sabor de infância. O gosto de uns coquinhos que eram vendidos enfiados, em forma de colar, na estação de trem, quando ela, menina, ia visitar a tia-avó. Era um gosto muito antigo, que agora lhe voltava à memória, como um jato. E junto com ele muitos outros, todos remotos. Gosto de pão com açúcar e manteiga no lanche da escola; gosto de pitanga, serigüela e jamelão, colhidos no sítio de manhãzinha, antes que o sol esquentasse; gosto de doce de jenipapo, moído com açúcar na máquina (havia máquina de moer naquele tempo, de metal prateado, que se prendia com uma rosca na beirada da pia); gosto do arroz cor-de-rosa que seu avô fazia, refogado e cozido não só com alho e sal, mas também com tomate.

E, sorrindo, ela se lembrou da frase de Nelson Rodrigues, tão deliciosa quanto verdadeira:

O homem só gosta daquilo que comeu na infância.


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[21/MAR/2004]


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