Estavam sentados em várias mesas, era um grupo grande. A quadra naquele dia se enchera desde cedo - o carnaval se aproximava. A mulher estava feliz. Essa era a época do ano de que mais gostava. Verão, samba, Rio, não queria mais nada. Observou o teto em arco, de onde pendiam milhares de tiras de papel crepom em duas cores, as cores da escola, e enquanto fazia isso o puxador começou a cantar o samba, mas ainda sem bateria, num andamento lento, cadenciado, o povo cantando junto, uma beleza. A mulher sorriu.
Não queria mais nada.
Mas, sim, queria. A verdade é que queria alguma coisa, algo que faltava e latejava lá no fundo, pedindo. Ou talvez fosse seu coração, batendo com força - por quê? Tomou mais um gole de cerveja, ajeitou-se na cadeira. Observou o brilho sobre os tampos das mesas de metal, a iluminação da quadra incidindo sobre os pequenos lagos formados pelo suor das bebidas. Tudo cintilava, tudo pulsava. Tudo. Seu coração tinha vontade própria, sempre fora assim. Eram amigos, mais nada, não deviam ser mais que amigos. Mas e aquele sorriso? E aquele olhar? A mulher virou o rosto, cantarolou o samba baixinho, tentou pensar em outra coisa.
Mas aí a bateria entrou. E quando os surdos bateram, ela estremeceu. No samba, quando bate o surdo, é como se batesse um coração. O sangue pulsa, dilatam-se as veias, a temperatura sobe, tudo se incendeia. O grande corpo da escola desperta, ganha vida, e cada coração de que ela é feita bate junto com esse coração maior, no mesmo compasso.
Quando é assim, é difícil manter o controle.
O olhar da mulher quase escapava e ela tentando segurar. Ele estava ali, tão perto, ao alcance de um braço, sentado na mesa ao lado. Mas ela não queria, não devia, eram só amigos, seriam só amigos. E os surdos batendo, e o coração batendo, e tudo pulsando num ritmo que se acelerava cada vez mais.
E de repente a luz se apagou.
Um susto, gritos, um princípio de pânico. A voz do puxador desapareceu - o que teria acontecido? Falta de energia na quadra, na rua, no bairro, na cidade?
Medo.
Há sempre uma centelha de medo no ar, à espreita, como se a qualquer momento se fosse acender um rastilho de pólvora. Mas, mesmo no escuro, a bateria segurou o ritmo - e o povo continuou cantando o samba da escola, agora ainda mais alto, em perfeito uníssono, sem atravessar. E o cantar foi crescendo, ganhando corpo, tudo pulsando mais do que nunca, sem freio.
E quase sem querer, por baixo da mesa, eles se deram as mãos.