Era engraçado que nunca tivesse ido. Morava tão perto, não mais do que três ou quatro quarteirões do Posto Seis, ali atrás, na Antonio Parreiras. Era só descer algumas quadras e pronto - estaria na praia. Por que nunca fora? Não sabia. E por que agora resolvera, pela primeira vez, ir assistir à passagem de ano na praia, em meio aos fogos e à multidão de branco? Tampouco sabia. Mas ia. Estava decidido.
Era um homem de mais de 50 anos, corpulento, sempre sorridente porém quieto, de poucas palavras. Morava sozinho, não tinha parentes no Rio. Era de poucos amigos, mas não se sentia solitário. Gostava de sair de manhã, caminhar até a padaria, bater papo com o sapateiro da esquina. Aposentado, tinha um passatempo: fazia bolsas de macramé. Amarrava os cordões no espaldar de uma cadeira e, sentado, ficava horas trançando as linhas, os dedos ágeis dando volteios e fazendo nós. Aos domingos, botava para vender numa barraca da Feira Hippie. Isso ajudava no orçamento.
Olhou-se no espelho antes de sair. Bermuda azul, camiseta branca, tênis branco sem cadarço. Estava pronto. Os foguetes já pipocavam em torno, principalmente na ladeira que ia dar no morro. Estava na hora. Alguém lhe dissera que não devia ir muito cedo, que o bom era sair depois das onze para descer no meio do povo. E de fato ficou espantado, assim que chegou à esquina da Rua Francisco Sá, ao ver o rio de gente. Um rio branco, que descia ritmado em direção à praia, um rio compacto, doce, que escorria sem atropelos, sem sustos. Todos pareciam felizes, todos riam naquele rio humano. Era espantoso. Sorrindo também, o homem foi junto.
Foi e foi e foi. À medida que caminhava, sentia-se cada vez mais parte da multidão, atado a ela. Cercado, acolhido, abraçado mesmo. A cada esquina, espiava para um lado e para outro e via, nas transversais, rios iguais, que também desciam rumo à praia. E quando afinal desaguou na avenida larga que ia dar na areia, o homem de repente se lembrou do que lera no ano anterior, alguém dizendo que o mais bonito do Ano Novo em Copacabana não eram os fogos e sim aquele povo de branco, a mágica de uma noite em que se dava um hiato na violência, um gigantesco armistício, a quase total suspensão das hostilidades. Nessa trégua, quase 3 milhões de pessoas se reuniam praticamente sem incidentes. Isso, sim, era único. Fora isso que decidira ir ver, não os fogos, não a música, não a festa. Agora entendia, agora se lembrava.
E, deixando-se levar, escorreu com o rio até a beira do calçadão, cujo desenho em ondas estava encoberto pela multidão compacta. Erguendo o rosto, observou a beleza da curva, as luzes da orla, o famoso colar. Viu que suas contas se espichavam num desenho distorcido, borrado. E só então, quando já lhe pingavam docemente no rosto as primeiras gotas de chuva, compreendeu que tinha os olhos cheios d'água.