Num fim de tarde, peguei carona no carro novo de uma amiga. Começava a anoitecer enquanto nós percorríamos a Visconde de Pirajá e eu ia com os olhos presos à vida lá fora, distraída e feliz como só os motoristas são capazes de ficar quando têm a oportunidade de entrar num carro sem dirigir. Mas, observadora como sou, logo notei uma coisa: a rua estava muito escura. Nem era completamente noite, ainda, e as calçadas já estavam mergulhadas numa penumbra tão densa. Seria algum problema nas lâmpadas dos postes? Uma falha geral, uma queda na corrente de luz? Comentei com a amiga, que dirigia a meu lado, e ela riu: não eram as ruas que estavam escuras, era o vidro do carro que tinha aquele filtro, explicou.
Olhei-a, admirada. ''Foi você quem pediu?''
''Não, agora eles estão vindo assim de fábrica, acho. Pelo menos o meu veio.''
Fiquei em silêncio por um instante. Tenho uma implicância solene com esses vidros escuros. Logo que eles começaram a surgir, me lembrei imediatamente de um filme a que assisti há muitos anos, cujo título em português era o ideal para as brincadeiras de mímica: Encurralado. Um sujeito vinha vindo tranqüilamente pela estrada e passava por um caminhão enorme, que sem mais nem menos começava a segui-lo, a desafiá-lo e por fim a persegui-lo numa caçada mortal. E o que dava mais medo era que não se via ninguém ao volante, os vidros do caminhão eram meio espelhados. Aquilo dava à frente do caminhão o aspecto de um rosto, os vidros com uma divisão no meio parecendo dois olhos baços. Era um caminhão-fantasma, movido talvez por uma força demoníaca, sobrenatural. Só podia ser.
Pois fico vendo esses carros de vidro escuro, esses carros sem motorista, sem ocupantes, e sempre penso no caminhão assassino. É desumano, é frio, é assustador. Tenho a impressão (embora chegue a me perguntar se não é tudo imaginação minha) de que as pessoas que dirigem carros de vidro escuro são mais agressivas ao volante. Talvez se sintam impunes por saber que seus rostos não podem ser observados.
E fico me perguntando o que aconteceria se de repente todos - todos - os automóveis fossem assim. Se andássemos pelas ruas como se cobertos por uma máscara, todos nós sem rostos, sem ver uns aos outros, trancados, mais do que nunca, nas nossas bolhas de segurança, inescrutáveis, indevassadas, inexpugnáveis (será?). Trancados - é isso. Sempre trancados, é como vivemos, cada vez mais. Por trás das grades, por trás dos vidros escuros.
Encurralados.
Até quando?