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Arte / Liberati

A semana começara com um sonho estranho. Às vésperas da viagem, o homem sonhara estar num galpão enorme, de paredes rústicas, onde dezenas de jovens trabalhavam na instalação de obras de arte. Ele próprio era jovem no sonho e trabalhava também. Com um martelo nas mãos, pregava gigantescos compensados, forrando paredes para que recebessem quadros. Mas, de repente, algo se modificou. E as pessoas à sua volta começaram a desaparecer, uma a uma. Desapareciam de estalo, como bolhas de sabão, até que não sobrou ninguém. Ele olhou em torno e, com espanto crescente, viu que agora era o cenário que desaparecia, sendo substituído, pedaço por pedaço, por um branco absoluto, um branco sobrenatural que era a própria representação do nada. E ele afinal ficou sozinho naquele não-mundo, naquele não-tempo, sozinho com o martelo na mão. Sentiu então que seus dedos se abriam lentamente, afrouxando a pressão em torno do cabo. E quando martelo foi ao chão, ele acordou.

O sonho aconteceu poucos dias antes da viagem à cidadezinha de sua infância, aonde não ia há anos. Achou-o estranho, mas tentou não pensar mais nele. A viagem foi tranqüila, a chegada também. A visita aos parentes, aos amigos, tudo transcorria como ele esperava, sem sobressaltos. Até que um dia, conversando com um amigo de infância, perguntou se era verdade que a cidadezinha não tinha mais cinema. O amigo confirmou. E o que foi feito daquele cinema grande, que ficava atrás da praça? Virou estacionamento. A informação deixou-o chocado. O cinema que freqüentava em criança, seu primeiro contato com o mundo de sonho da sala escura, tinha virado um estacionamento. Decidiu ir até lá.

Foi sozinho. As ruas estavam vazias, era um domingo. Atravessou a praça e alcançou a transversal onde ficava o cinema. A fachada fora parcialmente destruída, não havia mais sinal da porta de madeira e vidro, da bilheteria, do espaço em que se colavam os cartazes. Tudo viera abaixo para a construção de uma rampa, por onde na certa os carros subiam para parar dentro da sala de projeção - agora estacionamento. Entrou. Estava deserto. Observou o salão de pé-direito altíssimo, vazio de poltronas. A inclinação do chão fora mantida e o salão era uma enorme rampa que ia dar - e aqui ele se surpreendeu - no palco. Sim, o palco e a própria tela, lá estavam, ainda. Desceu. No espaço imenso, seus passos ecoavam, misturando-se ao arrulhar dos pombos, centenas, milhares de pombos que habitavam o forro do cinema abandonado, enchendo o ar com seu som agourento. O homem estremeceu, lembrando-se do sonho, em que - como agora - se vira sozinho caminhando sobre o nada, num não-mundo.

Por uma pequena escada lateral, subiu no palco. E viu o que restava da tela, a mesma que, como uma janela mágica, se abrira para ele um dia, transformando sua vida: fora toda ela coberta, assim como o chão do palco, pela sujeira dos pombos. E o excremento esbranquiçado dos pássaros foi um escárnio, uma ofensa a mais, como uma camada de cal que enterrasse definitivamente seus sonhos de menino.


[31/AGO/2003]


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