Estava satisfeita. O dia fora muito proveitoso. Não era sempre que conseguia cumprir todas as metas. A caminhada, as quatro horas na academia - duas de manhã, duas de tardinha -, a estimulação, o pilates. Muito bom. E agora, deitada, banho tomado, olhava para a televisão, distraída.
Sim, sem dúvida fora um dia ótimo. Começava a se acostumar com a nova dieta - se é que podia chamar aquilo de dieta. Era na verdade um jejum. E daí? Sua amiga dizia que queria morrer magra para ser enterrada de biquíni. Então? Não era isso mesmo? Comer, para quê? Comer era um conceito vago, pertencente ao passado, qualquer coisa longínqua misturando formas, sabores, cheiros, um amontoado de sensações um tanto difusas, que sobreviviam apenas em seu subconsciente. Comer já não fazia parte de sua vida.
Tomou entre as mãos a caixinha de plástico cheia de divisões, que estava em cima da mesa de cabeceira. Já preenchera os espaços com todas as pílulas para o dia seguinte. Observou seus diferentes formatos e cores, distribuídos pelas divisões de que era composta a caixa: manhã, almoço, jantar, hora de deitar. Olhava aquelas pílulas com uma espécie de ternura, sentia-se envolvida por elas. As pílulas, sim, eram seu alimento. Elas a mantinham viva. Um ex-namorado certa vez dissera que ela parecia um astronauta numa viagem intergaláctica, vivendo de alimentos sintéticos, em forma de comprimido. Os homens são muito intrometidos.
Recolocou a caixinha na mesa de cabeceira e tornou a erguer os olhos para a televisão. Um comercial mostrava uma mocinha cravando os dentes num hambúrguer. A mulher apertou o botão de desligar do controle-remoto quase sem sentir. E, abrindo a gaveta da mesa de cabeceira, tirou dali seu espelho de mão.
Olhou-se demoradamente. Primeiro séria, depois sorrindo e outra vez séria. Apalpou a fronte, quase junto à raiz dos cabelos. Não havia sinal do grampo de metal que, sob a pele, cumpria a missão secreta de erguer o rosto, na luta desigual contra a lei da gravidade. Passou também a mão pela linha que descia da asa do nariz em direção ao queixo, agora enrijecida pela doce presença de uma bactéria, ali inoculada pela injeção de Botox. Às vezes, sentia um arrepio. Pensar que a ruga fora preenchida por paralisia facial, provocada por envenenamento. Era horrível, se pensado assim. Mas e daí? Mais uma vez - e daí?
Era isso mesmo que queria, portanto estava feliz. O ex-namorado intrometido na certa diria que não, que ela apenas - como era mesmo que ele dizia? - ah, sim, que ela apenas ''arrumava por fora, para segurar por dentro''. Ainda bem que ele não estava mais por perto para se meter em sua vida. Melhor assim. O velho ditado, antes só do que mal acompanhada.
Era isso mesmo. Melhor assim.
Muito melhor assim.