A médica entrou na sala de recreação e observou que estava quase vazia. Apenas um ou outro interno continuava sentado ali àquela hora, desenhando, mexendo com cubos e fôrmas, pintando. E viu que entre eles estava o velho. Gostava dele. Tinha pena, também, pois sabia que era um daqueles casos irrecuperáveis, de gente que está há tanto tempo internada que não terá mais como enfrentar o mundo lá fora. E caminhou até ele.
Pouco depois estavam sentados os dois lado a lado, dando risadas. Quem os visse assim, de longe, tão díspares, haveria de se espantar com tanta alegria e intimidade. Ela, uma mulher ainda bem jovem, de cabelos muito lisos, quase louros, cortados rente ao queixo, vestida com seu jaleco branco. Ele, um homem magro e de corpo ainda rijo, mas com um rosto que parecia ter mil anos, tal a profundidade dos sulcos escavados na pele, sulcos que nas mãos pareciam encontrar o seu contrário, pois nelas, em seu dorso, o que havia eram veias saltadas, cruzando a pele em todas as direções como rios num mapa.
Às vistas da moça, o velho desenhava. Sobre a mesa de tampo rústico, feita talvez de madeira de demolição onde ainda restavam manchas de tinta, estavam espalhados papéis e lápis de cera de todas as cores. A médica observava, sempre intrigada, a desenvoltura, a leveza com que o velho traçava seus traços, a maneira como os desenhos iam surgindo. Embora nem sempre lógicos, ordenados, eram contudo desenhos de grande força e beleza. À medida que os desenhava, o velho ia explicando para a médica o que significavam, aqui um peixe nadando nas profundezas, ali uma menina fazendo primeira comunhão, depois uma árvore que, ao contrário de todas as outras, tinha nascido com as raízes viradas para cima.
Mas foi só depois de quase meia hora de desenhos e conversa que o velho parou por um instante, espichando o olhar para fora dos janelões da instituição, que se debruçavam para um bananal. Continuou imóvel por um longo instante, com uma expressão neutra, indecifrável, como se tomado por uma catatonia. Quando a moça já pensava em fazer um movimento, perguntar alguma coisa, ele finalmente se mexeu. Curvou-se mais sobre a mesa e, tomando uma folha de papel e um lápis de cera preto, começou a desenhar alguma coisa. Desenhou, com precisão e riqueza de detalhes, uma grande aranha negra. A jovem olhou-o, à espera de uma explicação, e não precisou esperar muito.
''Pronto'', disse ele. ''Agora não tem mais perigo. Se eu desenho, ela fica presa no papel e pára de existir dentro de mim''.
A moça sorriu, conversou um pouco mais e depois se levantou, saindo. Foi até sua sala e ficou um instante em silêncio, espiando as árvores lá fora, como o velho fizera. Em seguida, virou-se, caminhou até a escrivaninha e, tomando de uma folha de papel, escreveu nela um nome. Um nome de homem.
''Talvez assim eu possa arrancá-lo de dentro de mim''.