Era uma servente muito disciplinada. Tudo o que lhe mandavam fazer, fazia. Tinha consciência de que a vida não estava fácil. Para que arrumar problema? Desemprego, crise. Era preciso estar atenta. Fazia de tudo na universidade: varria as salas, espanava as mesas, as estantes, limpava os livros da biblioteca. E desempenhava também as funções de copeira, servindo água e café na reitoria.
Naquela manhã, acabava de sair da sala dos professores, no terceiro andar, e caminhava pelo corredor a fim de voltar ao térreo, onde ficava o depósito com os produtos de limpeza. Fazia frio e os corredores estavam mais sombrios do que nunca, com suas paredes de tijolos quase que inteiramente cobertas por quadros de aviso, cartazes e pichações. Já estava quase diante da escada quando ouviu um ruído atrás de si. Voltou-se e deu com uma mulher muito séria, toda vestida de escuro, a roupa abotoada até o pescoço. Concluiu que era uma professora, embora não a conhecesse. Com um cumprimento de cabeça, a mulher aproximou-se da servente e apontou para uma bandeja contendo uma jarra d'água e vários copos vazios, que estava sobre uma mesinha no corredor.
- Leve isto ao auditório do quinto andar - disse, quase num sussurro.
A servente, acostumada que era a obedecer, fez uma mesura e, pegando a bandeja, se dirigiu à escada. Quando pisou o primeiro degrau, por alguma razão virou-se, mas deu com o corredor vazio. A professora já não estava lá. Dando de ombros, começou a subir.
Galgou os dois lances sem esforço, apenas tendo cuidado para não derramar a água, que enchia a jarra até a borda. Mas assim que chegou ao quinto andar, deu-se conta de que não sabia para que lado ficava o auditório. Escolheu a esmo o corredor da direita, mas logo se arrependeu. O corredor, imenso, estava muito escuro, as portas, de um lado e outro, fechadas, e nas paredes nuas não havia qualquer aviso ou placa de orientação. Nada. Além do mais, ali em cima fazia ainda mais frio. Enquanto segurava a bandeja com as duas mãos, a servente sentia um sopro gelado às suas costas, embora não compreendesse de onde vinha, já que todas as portas estavam fechadas. Suas mãos começaram a tremer. Sem pensar mais, resolveu voltar e perguntar a alguém onde, afinal, ficava o auditório.
Apressou o passo, buscou de novo a escada e começou a descer. No silêncio opressivo, seus passos ecoavam, em meio ao chacoalhar dos copos na bandeja.
Desceu de volta dois lances e, já no terceiro andar, ficou aliviada ao ver uma professora - esta, sim, sua conhecida. Sorriu para ela.
- Aonde vai com essa bandeja? - perguntou a professora.
- É para levar ao auditório do quinto andar, mas eu não consegui achar. A senhora acredita que, em todos esses anos que trabalho aqui, nunca tinha ido ao quinto andar?
- E não poderia mesmo - disse a professora, com uma risada. Este prédio só tem quatro andares.