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É só isso mesmo?

A mulher acordou bem cedo e, antes mesmo de sair da cama, já sabia, pela claridade filtrada através da cortina japonesa, que era um dia de sol. A semana começara com dois dias de preguiça e chuva, o que a deixara presa em casa, sem caminhar. Fora desagradável, aquela inércia lhe dera uma sensação ruim. Precisava da caminhada para começar bem os dias, para se acalmar, para pensar. Bom que o sol estivesse de volta.

Levantou da cama, satisfeita. Nem olhou os jornais. Depois de um gole de café, saiu. Assim que deu os primeiros passos na calçada, ao sair da portaria, olhou para o céu. Era cedo, ainda. O sol estava frio. Mas era melhor do que nada. Seguiu em frente.

Quando chegou à praia, já estava um pouco mais quente, apesar das grandes extensões de sombra que os prédios mais altos projetavam sobre a calçada. Nesses trechos, as pedras portuguesas ficam úmidas, escorregadias, é preciso pisar com cuidado. Como sempre, ela caminhou na direção do fim do Leblon.

Enquanto andava, sentindo nas costas o sol tépido, teve vontade de cantar. Era uma mania sua. Gostava de cantar. Mas cantava baixinho, apenas para si, quando estava só. Cantava mais ainda quando estava triste, quando alguma coisa não ia bem. Mas não era hora de pensar nessas coisas. Precisava apenas olhar para a frente, observar a massa de montanhas, sentir o sol, dar um passo atrás do outro e seguir - cantando.

A primeira música que lhe veio à cabeça foi uma canção antiga, de cuja letra não se recordou a princípio. Seguiu cantarolando apenas a melodia, mas não demorou muito a lembrar: era uma canção gravada nos anos 60 pela Peggy Lee. ''Is that all there is?'' dizia a letra. É só isso mesmo? É só isso que há? A vida é assim sem sentido, apenas uma soma de alegrias e aflições inúteis, para acabar em nada?

Na gravação de que se lembrava, Peggy Lee, com sua voz morna, contava como, quando era menina, fora levada ao circo e, depois de ver o espetáculo, perguntara: Mas é só isso? Mais tarde, ao crescer, encontrara seu primeiro amor. E quando o amor dera em nada, voltara a perguntar, decepcionada: É só isso mesmo?

E, enquanto cantarolava, a mulher caminhou e caminhou. Chegou ao fim do Leblon, ao ponto em que a calçada se estreita e sobe em direção à Niemeyer. Sem vontade de parar, sempre cantarolando, subiu por ali. Queria ir em frente. Seguir andando. Quando chegou ao mirante, desviou pelo deque, pisando nas ripas de madeira, um tanto incertas, e por um instante parou, olhando para baixo. Na manhã de sol novo, depois de dois dias de chuva, o ar lavado, as ondas furiosas, espumando na luz oblíqua, eram um espetáculo de rara beleza. ''Is that all there is?'' E se for só isso mesmo? - pensou a mulher. E então sorriu. Bem, se for só isso, não tem problema. Já está bom demais.

[21/JUL/2002]

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