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Sol e chuva

Foram muitos dias de sol.

Muitos.

Inúmeros, incontáveis. Dias de um verão perfeito e tardio, que veio quando já não esperávamos por ele. Depois de um ano novo sem brilho, de um carnaval sem graça, de um verão às escuras, sombrio, ameaçador, cheio de umidade, doença e mosquitos - estávamos desesperançados.

E aí aconteceu.

No lugar das águas de março, surgiu no céu um sol de primeira grandeza. Um sol que fez nascerem manhãs de uma beleza quase obscena. Manhãs em que o mar - cúmplice - fez a sua parte, pousando com mansidão sobre as areias, como se temesse maculá-las. Um mar incrivelmente limpo, de verdes, transparências e brilhos, onde nadaram peixes de todos os tamanhos, de estirpes diversas. Um mar que em sua delicadeza formou piscinas. Um mar que em sua doçura era ainda - como se não bastasse - morno, quase quente.

Quente era o ar também, e muito. Mas nas esquinas, à tarde, às vezes, soprava uma brisa. É verdade. Houve uma vez esse verão inesperado onde, ainda por cima, havia aragem. Foram dias, muitos dias, de perfeição, em que a paisagem do Rio se exibiu, entrou por nossos olhos com acinte, quase com escárnio - de tão linda.

Mas um dia, esse verão, tão tardio e belo, acabou.

Acabou de repente - numa madrugada de temporal. Eu estava acordada. Não sei por que, mas ouvi alguma coisa e me levantei. Gosto de temporais. Gosto sobretudo daquele instante que antecede sua chegada, quando as primeiras rajadas de vento agitam as árvores, enchendo o ar de uma urgência, anunciando perigo. Mas dessa vez não havia vento. O temporal se anunciava lá por cima do Sumaré, em nuvens mais negras que a noite. Dava para ver, para além dos prédios, a coluna cinzenta da chuva se derramando, cada vez mais perto, cada vez mais perto. No céu, os relâmpagos. Mas vento, não. E é quase certo que não houvesse trovões. Foi um temporal imponente, mas silencioso, que se estendeu sobre a cidade com reverência e cerimônia.As águas se despejaram diante de mim numa precipitação perfeitamente vertical, a ponto de sequer respingarem nos vidros das janelas. Mas eu sabia, já naquele instante, que a estação estava terminada. A água que se despejava era uma cortina, fechando o verão. E pensei, como a consolar-me, que assim pelo menos deixaria de fazer tanto calor. Foram dias quentes demais, sem dúvida. E muitas foram as nossas queixas do calor, queixas pequenas, impensadas. Quando a temperatura sobe demais, nos exasperamos. Mas, quando chega o outono, num instante olhamos para trás com nostalgia. Ainda mais se tivemos um verão assim, que veio como um brinde - tardio, luminoso e perfeito.

Mas não faz mal. Novos verões virão.

[31/MAR/2002]

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