Um dia, há muitos e muitos anos, no século passado, houve um homem que se meteu dentro de uma cápsula pouco maior do que uma geladeira e se lançou no espaço. Foi pioneiro ao fazer isso e, assim sendo, entrou para a História. Mas, mais que um nome, Yuri Gagarin deixou para trás sua marca: a frase que proferiu quando se tornou o primeiro homem a ter de nosso planeta uma visão externa. Vendo-nos lá de fora, disse: ''A Terra é azul''.
''A Terra é azul'', repetimos, tentando acreditar. Assim passamos as últimas décadas do século 20 e entramos pelo século seguinte: tentando acreditar que a Terra é azul. Fica difícil, às vezes. Principalmente agora que surgiram relatos de astronautas dizendo que, visto lá de cima, o azul está cada vez mais pálido, cada vez mais desbotado e cinzento, por causa da poluição ou do buraco na camada de ozônio, não sei bem.
Foi portanto com curiosidade que outro dia, folheando os jornais, dei com a notícia de que tinham descoberto a cor do universo. A combinação da luz de todas as estrelas, feita por dois astrônomos americanos, tinha resultado num verde-pálido, batizado por eles de verde-cósmico. É a cor que enxergaríamos se pudéssemos olhar todas as estrelas de uma só vez. Uma cor, inclusive, que vem mudando com o tempo e que vai ajudar os cientistas a entender melhor a evolução do cosmo.
E assim, se havia dúvida sobre o tom azul da Terra, pelo menos agora fica estabelecido: o universo é verde.
Mas desta vez eu acredito. Não tenho a menor dúvida de que os astrônomos acertaram. Eles próprios reconhecem que se surpreenderam ao descobrir que o universo é verde-água - já que não há estrelas verdes -, mas para mim não foi surpresa alguma. Li que a cor é uma mistura de 0,269 de vermelho, 0,388 de verde e 0,342 de azul e que os dois cientistas, para chegar ao tom exato, precisaram combinar a luz de mais de 200 mil galáxias, algumas a até 2 bilhões de anos-luz de distância da Terra. Coitados, tiveram um trabalho danado. Mal sabem eles que não precisavam de nada disso. Poderiam ter falado comigo, me perguntado.
Reconheci de imediato aquele verde ao vê-lo estampado no jornal, a mistura suave de turquesa e água-marinha, o tom que antes eu tinha visto apenas em um lugar. Guardo comigo em casa uma amostra perfeita, de nuance e matiz exatos, da cor do cosmo. É verdade. Os cientistas não sabem, ninguém imagina, mas eu posso provar: o universo é exatamente da cor dos olhos da minha gata Colette.