Mulheres nuas, a confusão sem fim dos blocos, carro alegórico em chamas, a Luma tentando renascer das cinzas, quatro dias à base de álcool e comida gordurosa, turistas pagando US$ 2 numa latinha de cerveja, o guarda-sol na praia a R$ 5. Pode parecer estranho, mas há muita gente que se diverte num cenário como este. Outros, entretanto, não podem ouvir falar de Carnaval sem sentir um calafrio. Geralmente eles não têm voz, mas os blogs estão aí (também) para isso.
Nada de Carnaval
''É, eu não gosto de Carnaval. Chego a odiar. Meu corpo todo se arrepia só de ouvir a palavra. Pior, só mastigar papel alumínio com a boca cheia de obturações de amálgama. Antes, calma lá, explico a situação: gosto de samba, não desprezo a cultura nacional, adoro festas, sou a favor da alegria geral, não sou nenhum puritano e muito menos desprezo uma boa sacanagem. Sabe, talvez eu já tenha gostado de Carnaval, mas cansei. É muito igual, ano após ano.
Antigamente eu até freqüentava a coisa, entrava na brincadeira, com olhos atentos em busca de uma bela comissão de frente e porta-bandeiras. Eu, de mestre-sala, me enfiava em bailes e até carnavais de rua, simulando a dança, como diz nosso amigo Evandro Daolio, apenas armando o bote. Hoje eu quero mais, corro de confetes e serpentina, salão abarrotado, com gente suando álcool, pulando com os indicadores para cima, cantando Se você fosse sincera, ooooh, Aurora. Ah, fala sério!
Chato de galochas? Pode ser, mas é que não entendo, parece que se decreta uma nova lei: a do liberou geral. Já teve estrangeiro me perguntando como era andar pelado nas ruas, sambando e 'traçando' a mulherada, na frente de todos, com camisinhas distribuídas gratuitamente pelo governo. Sim, se faz a maior propaganda pelo mundo que o controle da Aids no carnaval brasileiro é rigoroso e eficiente. Viva o país dos pervertidos! Baseado nisso, tome cuidado ao sair na rua!
E o que dizer do festival de 'celebridades' peladas? Ficam lá, com um sorriso de cera, mostrando suas novas turbinadas, sambando como dinamarquesas, com a flacidez e as estrias disfarçadas pela maquiagem de purpurina (pois na avenida não tem Photoshop), todas brigando por uma câmera, um minuto de fama, um close com o pandeirista, usando coleiras com os nomes dos maridos queridos e traídos, e por aí vai.
Sou da turma do refúgio, prefiro os dias do Carnaval para descansar. Eita, bendito feriado! Vamos fugir deste lugar, baby. O Brasil pára como se fosse dia de jogo da seleção na Copa do Mundo (aliás, o país só costuma funcionar depois do Carnaval). Vou para o mato, me isolo, não quero escutar samba, não quero saber de Mamãe eu quero, pois já tenho onde mamar. Acho um porre ficar sentado na frente da TV, em plena madrugada, arrotando pipoca, vendo com palitinho nos olhos sei lá quantas escolas, uma atrás da outra, com sambas-enredo que se repetem na fórmula, vendo os bailes de salão ou o carnaval de rua, trios elétricos num mar de gente. São iguais o coelhinho da Duracell, não páram de pular um minuto sequer, muitos (nem todos) com sangue no álcool, bêbados, clientes VIP dos ambulatórios das cidades - 'glicose na veia é jóia camarada' -, chamando urubu de meu Louro José. Quero distância da 'folia'. Prefiro descansar e recarregar as energias, isso sim é DEEEZ, NOTA DEEEZ!.''
Postado por Nelson Botter, do Bionicas.
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