Os pitboys são um problema cada vez mais assustador e tema freqüente na imprensa e rodas de conversa. Soa um pouco estranho que o assunto ganhe mais espaço nas páginas de cultura e comportamento do que nas policiais. De qualquer forma, já é melhor do que a omissão total. A maioria insiste em tratar os espancadores como um ''problema social''. Mas, me parece óbvio que este problema (gangues atuando na zona sul do Rio de Janeiro) seja uma questão de impunidade. É uma das conseqüências de se viver num país em que a lei não é respeitada, máfias imperam, e onde parecem habitar as pessoas mais conformadas do planeta. A indignação brasileira dura meia hora, no máximo. Não se trata de um privilégio carioca: em Brasília são os filhos das ''autoridades'' que fazem o que querem. No interior, são os filhos dos fazendeiros. Quando inventaram a vida nas cidades, amontoando pessoas, algumas regras foram criadas para que se pudesse viver com um mínimo de ''harmonia''. Quem não cumpre as leis, está fora. Só que aqui é diferente: quem não respeita as regrinhas está dentro e ainda decide quem entra e quem sai. Quem espanca e fica impune está no mesmo saco de estupradores que continuam soltos, traficantes que dominam a cidade, políticos que embolsam impostos. E a classe média acende uma vela branca na janela e nada faz de efetivo contra estes jovens e sua fúria mafiosa. Continua preguiçosa e passiva assistindo ao próprio fim.
Abaixo, uma pequena descrição de uma terra de ninguém:
Noite em Ipanema
''23h, Visconde de Pirajá deserta. Um bêbado aqui, um mendigo acolá, um porteiro sonolento se esparrama na cadeira em frente a um prédio. Bancas fechadas. A2, a loja de 'conveniências eróticas' exibe um 24h de neon apagado e tem as portas cerradas. Letras e Expressões, o refúgio dos notívagos e solitários que um dia varou madrugadas sem descanso, dorme lacrado e escuro. Onde estão as trombetas do Apocalipse? O mundo acabou e não me avisaram? Isso é hora da cidade apagar as luzes?
Quem é dono de restaurante já sabe: a noite na cidade está morta. Um grupo de 200 deles acaba de se reunir em um movimento, o Divirta-se, com a proposta de fazer o carioca sair quando as luzes se apagam.
Vou contar como é sair motorizado à noite em três cenas.
Primeira delas: deixamos o carro parado na Prudente de Moraes. Horas depois, voltamos para encontrar vidros quebrados espalhados pelo banco, rádio roubado, na Ipanema deserta das 23h.
Segunda: tenta-se parar na vizinhança de qualquer estabelecimento movimentado. Na rua, pública, existe um sujeito que clama o espaço como seu. (...) O flanelinha é um produto tipicamente brasileiro. (...) Extorque quem têm medo do roubo do rádio citado acima. E ainda receia uma retaliação do sujeito em pessoa. É um marginal institucionalizado, com o álibi da pobreza. E a maioria acha normal.
Última cena. O protagonista sou eu mesmo, o muso da blitz policial. (...) Não apenas olham documentos. Vasculham bancos, buracos, tapetes, malas, abrem caixas, malas. (...) Perguntou onde moro, o que faço, pra que servem todos os produtos que levo dentro da mochila, mandou eu levantar a camisa, como se eu não tivesse o direito de sair à noite em uma cidade violenta. Como se quem sai depois das 18h é traficante, drogado ou marginal. (...) E todo mundo acha normal''. postado por Gustavo, do Chocolate.
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