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Coisas da Política
A segunda morte do prefeito (fim)

 


A segunda morte do prefeito (fim)


Fim desta série de três artigos, convém avisar. Não o fim do caso Celso Daniel, o prefeito de Santo André seqüestrado, torturado e morto em fevereiro de 2002. Para mandarins do PT e figurões do governo tucano de São Paulo, a história terminou com a prisão dos responsáveis pela captura e execução. Foi crime comum, decidiu a surpreendente coligação.

Não foi, insistem jornalistas com mais de cinco neurônios e integrantes do Ministério Público paulista, que seguem investigando o homicídio. O epílogo só virá com a identificação, o julgamento e a punição dos mandantes. Depois da reportagem divulgada em 3 de julho pela TV Bandeirantes e reproduzida pelo JB, parece menos complicada a remontagem do quebra-cabeças. Não são poucas as peças já reunidas. Um bom detetive de livro policial não demoraria 10 páginas para conectá-las e chegar ao fim da história.

Nero Wolfe, por exemplo. O personagem criado pelo escritor americano Rex Stout é tão lento nos movimentos quanto ágil no raciocínio. Odeia movimentar o corpanzil calculado em arrobas, raramente sai de casa. Entre incursões ao orquidário e banquetes formidáveis, Wolfe entrevista suspeitos ou testemunhas, examina pistas colhidas por terceiros, bebe cerveja e pensa. Para decifrar mistérios, recorre a dois trunfos: o talento para induzir interlocutores a gaguejar contradições e o extraordinário raciocínio dedutivo.

Vale a pena imaginar uma conversa entre Wolfe e Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra", que parece foragido de um mau romance policial. Suposto amigo de Celso Daniel, de quem fora assessor, seria o último a ver o prefeito com vida. Naquela noite de janeiro, jantaram em São Paulo. Por que não em Santo André, que tem bons restaurantes? Buscavam distância de testemunhas? Tampouco faltam a Santo André locais convenientemente reservados.

A conversa incluiria um tema indigesto. Celso resolvera acabar com o esquema criminoso forjado nos porões da prefeitura para financiar campanhas eleitorais do PT. Sombra queria o prosseguimento da maracutaia que vinha engordando seu patrimônio. Era natural que os parceiros desavindos procurassem restaurantes discretos. Se existem muitos em Santo André, por que São Paulo?

Talvez para atender a um pedido dos matadores de aluguel: familiarizados com as ruas e vielas da capital, preferiam agir em seus domínios. No volante do Pajero blindado, Sombra escolheria o caminho de volta a Santo André. Os bandidos decidiriam o melhor lugar para o ataque ao homem descrito pelos mandantes. Quando o Pajero passou por eles, identificaram o alvo no banco ao lado do motorista. A perseguição durou pouco, segundo a história contada por Sombra no primeiro depoimento à polícia.

Um história muito estranha. Ao perceber que eram perseguidos, tentou acelerar. Algo falhou. Também falharam as travas, que se abriram à investida criminosa. (A perícia feita pelo fabricante comprovou a inexistência de problemas mecânicos no veículo.) Celso foi arrancado pelos seqüestradores, que pouparam Sombra. Mais um mistério entre tantos, um dos quais envolve o comportamento dos bandidos nas horas seguintes.

Celso foi morto a tiros só dois dias depois da captura. Se fora um seqüestro convencional, por que os carrascos não fizeram, nesse período, nenhuma proposta de resgate? Se o objetivo era simplesmente matar o prefeito, por que não o fizeram no momento do ataque ao Pajero? Por que deixaram vivo alguém que poderia mais tarde identificá-los? Por que torturar a vítima, com extrema brutalidade, antes da execução? Para obrigar o prefeito a revelar onde escondera o dossiê sobre o esquema de arrecadação?

Às vezes, o esclarecimento de certos crimes dispensa respostas. Bastam perguntas.


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[19/JUL/2005]


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