É preciso reconhecer a gravidade da crise, como primeiro passo para que ela seja superada. Foi correto o discurso de quarta-feira do deputado José Dirceu, ao citar os números que atestam os êxitos administrativos do governo. Eles poderiam ser maiores, se os juros estivessem em níveis sensatos, mas não é disso que se trata. Trata-se de saber se os últimos governos e o Congresso têm respeitado os brasileiros, ou se os vêm enganando de maneira vil.
No decorrer dos depoimentos, começam a surgir novas denúncias. Por todo o lado que se toca, as paredes parecem carcomidas pelos cupins da corrupção. Reafirma-se, na consciência das pessoas mais sensatas, que é preciso derrubar e reconstruir tudo. Mas é preciso entender que, tanto no Poder Executivo quanto no Parlamento, há pessoas honradas, dignas, capazes de repensar a República e agir em sua defesa. A política, graças a Deus, não é um ofício de patifes, embora os patifes dela se aproveitem.
Quando surgem nostálgicos da "ordem" militar, convém lembrar que o regime instaurado em 1º de abril de 1964 foi o principal responsável pela erosão da consciência política nacional. Não é momento para discutir as suas razões. Elas podem ter sido as mais bem-intencionadas do mundo, mas o resultado foi danoso. Dizem seus defensores que a economia cresceu fortemente - mas teria crescido da mesma forma, ou ainda mais, se Juscelino, ou outro civil com suas virtudes, se elegesse presidente em 1965. As condições objetivas estavam criadas para isso. As dificuldades trazidas pela renúncia intempestiva de Jânio Quadros poderiam ter sido superadas com um pouco de paciência e lucidez. Faltou, naqueles meses, análise sensata da realidade política. Dela se alienaram os conservadores e os assim chamados progressistas. Os exacerbados assumiram o discurso político, abafando os moderados. Chegou o momento em que mesmo os mais lúcidos caíram na armadilha do maniqueísmo. A partir daí foi impossível impedir o belo e alucinado patriotismo dos jovens e a brutalidade da repressão. De um lado e de outro, na busca dos atalhos, rolamos pelas perambeiras. Hoje sabemos como a opinião pública nacional foi manipulada pelos interesses estrangeiros, que fermentaram a discórdia, mediante o financiamento da campanha eleitoral de 1962 e os mensalões em dólares, repassados pelos empresários golpistas.
No período de consolidação do regime de exceção, os homens de bem se dividiram entre os que se mantiveram na atividade política, mesmo no reduzido e perigoso espaço da oposição consentida, à espera da oportunidade de luta, e os que, nauseados, foram cuidar da vida. A ditadura tratou de centralizar o poder em Brasília, transformando os estados em sobados, para os quais nomeava régulos. Essa talvez tenha sido a mais danosa forma de corrupção (sem esquecer as outras do período) porque impediu a formação de homens públicos com a vocação de servir e estimulou o aparecimento de novo tipo de carreiristas. Os 20 anos transcorridos a partir da retomada do processo democrático não nos permitiram a estabilidade desejada. Não nos foi possível descentralizar o poder (e sem essa descentralização tem sido difícil formar quadros políticos nos municípios e estados), e o Parlamento, não obstante a maioria de homens honrados que o compõem, não conseguiu impedir a companhia de celerados e episódios constrangedores, como os vividos anteontem no plenário.
A democracia é uma escalada difícil, cheia de escolhos, de pedras soltas, de pegadas falsas - mas pela trilha conhecida, que exige autonomia dos poderes, liberdade de imprensa, liberdade de reunião, liberdade de greve, liberdade de associações pacíficas, de protestos nas ruas. Quando se escolhem os desvios à esquerda e à direita, sabemos o que ocorre. Essa é uma advertência que a História faz aos desmemoriados e aos açodados. É uma advertência necessária nestas horas. Mas não se confunda prudência com tolerância: a nação quer conhecer a cara de quem a insulta, ao apropriar-se de seus sacrificados bens.