Nas cerimônias de sepultamento de Tancredo Neves, em São João Del Rei, o ex-presidente Jânio Quadros, tocado pela emoção, disse a frase perfeita para aquelas e estas horas: Esta República, desde Deodoro, está sob o signo do infortúnio. Jânio se referia à comoção nacional, provocada pela morte do homem que era a esperança de reorganização democrática, depois de 20 anos de regime militar. Semanas antes, ao eleger-se pelo Colégio Eleitoral, Tancredo lembrara a frase forte de Tiradentes, recolhida nos depoimentos dos Autos da Devassa: "Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação". Depois da leve pausa, que os bons oradores sabem fazer, Tancredo encerrou o pronunciamento com o compromisso: "Vamos fazê-la". Em todas aquelas jornadas de 1984 e 1985, o grande mineiro entendia a pátria como empresa de todos os brasileiros. Sempre falava na ação coletiva, dizendo que só faria o que fizéssemos juntos. Uma coisa apenas Tiradentes e ele poderiam fazer individualmente pela Pátria: morrer, como morreram.
Voltemos a Jânio e ao infortúnio de nosso tempo republicano. As desgraças políticas não são fenômenos da natureza, mas atos dos homens. O próprio Jânio Quadros, que surgira no cenário brasileiro como uma espécie de incorruptível robespierre suburbano, com a vassoura e o boné de motorneiro de bondes, pode ser apontado como responsável por nossas vicissitudes atuais. Quis ignorar a Constituição e desdenhar o Congresso (ressalte-se que a Câmara, em 1961, era a Câmara dos Comuns, e o Senado, a Câmara dos Lordes dos melhores tempos ingleses, se comparados ao Congresso de nossos dias). Esperava que as massas o levassem, em triunfo, de volta a Brasília e se deu mal. Desde aquelas semanas de angústia, a democracia brasileira não foi mais a mesma. Antes tivéramos as nossas tragédias, com a morte de Vargas em 1954, os confrontos militares de 1922, 1924, 1930, 1932 e as tentativas insurrecionais de 1935 e 1938. Mas a estabilidade relativa e o mandato criador de Juscelino, nos cinco anos anteriores à renúncia de Jânio, assinalavam caminho de grandeza para o Brasil nas décadas seguintes.
Não houve, no entanto, durante os 116 anos de República, momentos mais constrangedores do que os vividos ontem durante o depoimento do deputado Roberto Jefferson à Comissão de Ética da Câmara dos Deputados. Nem mesmo aqueles sofridos durante o processo de investigações que levaram ao impeachment de Collor foram tão graves. Hoje não se trata de uma suspeita sobre um arrecadador a serviço de um grupo de aproveitadores, mas de dolorosa revelação sobre o desabamento do Estado Nacional. O depoimento do deputado fluminense revela a completa desordem de nossas instituições políticas, atingidas por dois tempos brutais de corrupção, o de Collor e o de Fernando Henrique. É nesse passado próximo que encontraremos o foco da infecção que se generalizou.
Em sistema presidencialista como o nosso, parlamentares não podem ser ministros, nem indicar quem quer que seja para o Poder Executivo. O que se revelou ontem, tão grave quanto a corrupção, foi a indicação política de pessoas desqualificadas para cargos técnicos de alta responsabilidade, como o da Diretoria de Engenharia Elétrica de Furnas. O presidente Lula, nesse regime de promiscuidade, ainda que fosse o maior dos varões de Plutarco, não conseguiria impor ordem ética a essa infeliz República.
As organizações da sociedade civil e a CNBB já articulam movimento a fim de convocar assembléia nacional constituinte, idéia que se alastra no próprio Congresso. Como lembrou Miro Teixeira, não dá para colocar meia-sola na Constituição. Pedro Simon, em discurso sexta-feira, afirmou que é inútil remendar mais o texto, que já está totalmente desfigurado. Pelo que se ouviu ontem - e que os jornais estão relatando hoje -, o atual Congresso carece de legitimidade para realizar as reformas que o Estado contemporâneo está a exigir.
E não adianta o arranjo entre os partidos, a fim de esvaziar a CPI que se abre hoje: desta vez não há como conter as águas represadas.