Excelente matéria das jornalistas Ana Carolina Gitahy
e Leila Youssef, publicada ontem neste jornal,
mostra que falta, aos oposicionistas, autoridade moral
para condenar o esforço de Lula a fim de impedir a CPI
dos Correios: foi o que sempre fizeram, quando estavam
no governo e deixaram o mau exemplo. Como se sabe, o governo
Lula se encontra refém dos mesmos “poderes de
facto” que sempre mandaram neste país. Ou seja, os exercidos
pelos que, com dinheiro, elegem ou derrotam os candidatos
e costumam fazer as maiorias parlamentares.
A opinião pública já percebeu que no governo anterior
não houve a mesma e efetiva ação policial contra os peculatários.
Os repetidos escândalos, sobre os quais quiseram
colocar as pedras do esquecimento, são agora relembrados
pelos jornalistas de boa memória. Entre eles é bom
destacar o do Sivam, com fita gravada cujo inteiro teor é
ainda um mistério nacional.
O poder de governo é amais frágil das instituições humanas,
talvez porque pretenda ser a mais forte. Grande
adversário de Mussolini, o historiador Guilhelmo Ferrero
associa o poder ao medo. A ambição de mandar, ao ser inicialmente
satisfeita, converte-se no medo de perder o
mando. É nesse processo que se compreendem os atos de
corrupção: para não perder o poder, os governantes são
pródigos com os bens sob a sua guarda e os usam para comprar
fidelidades. E, como ocorreu a Napoleão, no caso do
assassinato do Duque de Enghien e a Mussolini, com a
morte de Matteotti, matam por medo.
Essa situação consome os neurônios dos pensadores
políticos desde que a linguagem escrita a registra. Os poderosos
necessitam, não só do consentimento
passivo, mas, sobretudo, da fé dos
cidadãos. A fim de manter-se, o poderoso
gasta mais do erário e usa maior violência,
quando é o caso, até que a paciência
dos povos se esgote. Locke disse que
toda revolução é, no fundo, restauradora.
Vitor Hugo vai mais adiante: para
ele, a revolução é o retorno da ficção à realidade. Esse processo pode durar mais tempo ou menos
tempo; pode ser pacífico ou violento.
Ferrero chega à estreita ligação entre o poder e o medo,
no estudo da vida de dois homens notáveis pela sua inteligência
e pela sua ambição: Talleyrand e Napoleão. O
príncipe foi hábil oportunista e, todas as vezes que os próprios
interesses coincidiam com os da França, excepcional
homem de estado. Mas, como registra, entre outros, seu
biógrafo Tarlé, o prelado não hesitou, quando queria dinheiro,
em alienar a França. Dele se dizia que vendeu todos
os que o compraram.
O sistema democrático, em sua vulnerabilidade, é o
único que, ao limitar o tempo de poder, pode salvar o poderoso
do medo e o salvar da corrupção. Para isso faz falta
uma virtude: a consciência da efemeridade, não só do poder,
como da própria vida. Poucos são os que têm essa
consciência. A fim de substituir esse sentimento subjetivo
pela razão no Estado (e não razão de estado), os constituintes
de 1891 proibiram a reeleição dos ocupantes de cargos
executivos. O Sr. Fernando Henrique Cardoso poderá purgar
todos os erros cometidos, durante seus oito anos, mas
sempre pesará, em sua biografia, a quebra desse princípio
republicano, com a aquisição (porque de aquisição se tratou)
da própria reeleição. A partir de então, os chefes do
Poder Executivo – do prefeito do menor dos municípios ao
presidente da República – usam os quatro primeiros anos
do mandato na campanha para a reeleição, e nos quatro
anos finais, se reeleitos, os contribuintes pagam a fatura.
O presidente Luis Inácio da Silva tem a grande oportunidade,
nestas mesmas horas, para assegurar, mais do que
a reeleição, a reverência nacional: basta instruir os ministros
e os aliados para aprovar a CPI dos Correios. Ele não
tem razões para o temor, nem para proteger aliados incômodos:
é só pagar para ver. Depois, é mandar o jogo prosseguir,
e exigir que se reabram as investigações que o governo
anterior arquivou, algumas delas relacionadas pelo
Jornal do Brasil em sua matéria de ontem.