Sempre que há sucessão no trono do pescador Pedro, uma sombra percorre o Ocidente: a sombra de Cristo. Talvez ela seja menos presente no próprio conclave. Ali, o inevitável choque de interesses geopolíticos e de ambições naturais dos candidatos e seus séquitos afasta as preocupações transcendentais, para impor os ritos próprios da articulação política.
Coincidindo a sua eleição com a de Reagan e de Margareth Thatcher, coube a Wojtila construir a "santa aliança" dos interesses nacionalistas poloneses com os da Casa Branca, da City e de Wall Street, em que foi a peça instrumental do neoliberalismo para a demolição do poder soviético. Como disse o cardeal Biffi, então arcebispo de Bolonha, desabava-se, com o muro de Berlim, o horizonte da esperança dos pobres (é do mesmo novembro de 1989 o Consenso de Washington). A existência da URSS obrigara o capitalismo a respeitar, pelo menos em parte, os direitos dos trabalhadores. Sem essa contenção, advertiu Biffi, voltaríamos à selvageria do século 19, exacerbada pela tecnologia e pelo controle das informações.
Mas, enquanto a sombra de Cristo percorrer a Terra - ao lado daquele fantasma, que segundo Marx, em seu Manifesto de 1848, rondava o mundo, e não foi de todo escorraçado da História -, os pobres podem ainda ter esperança.
A vida da Igreja tem sido, como a vida do homem, o conflito permanente entre ricos e pobres. Essa reflexão sempre retorna, enquanto se espera, do telhado do Vaticano, il fumo bianco. O cristianismo foi uma religião dos pobres, da qual se apossaram, no século 4, os poderosos e ricos. A partir de Constantino é, na tensão entre o espírito e a carne, entre o sonho e a vigília, entre o sentido do poder temporal de Ambrósio, a teologia intelectualizada de Agostinho e a visão de ascese e de santidade de Jerônimo, que a Igreja fixa suas estacas no poder. Os três grandes doutores da fé que foram contemporâneos conheceram-se e trabalharam juntos, eram homens da classe dirigente e talvez pressentissem que só a nova religião asseguraria continuidade de Roma, como alicerce da civilização ocidental, durante as invasões dos bárbaros nórdicos e das estepes.
A história da Igreja tem sido uma construção dialética. De vez em quando, o ânimo do Cristianismo primitivo, aquele da Igreja do Caminho, sobe das catacumbas ao conclave e, com o nome de Espírito Santo, sopra nas orelhas dos cardeais-eleitores o nome de Cristo. Assim ocorreu quando o cardeal Pecci, como Leão XIII, sucedeu ao ultramontano e obscurantista Pio IX; e, mais recentemente, quando o cardeal Roncalli, com o nome de João XXIII, tomou o lugar de Pio XII, acusado, entre outros pecados, de haver sido conivente com o "bom católico" austríaco Adolf Hitler.
É exagero creditar a Wojtila todos os louros pela queda da União Soviética: o sistema, ao imitar o processo industrial do capitalismo, importara os germes da enfermidade que o destruiria, cuja maturação foi adiada pelo heroísmo dos comunistas na luta contra o nazismo. Mas sua santidade causou, com sua opção histórica, grande prejuízo à Igreja. Ao abandonar os postulados de João XXIII, que, mal ou bem, Paulo VI tentara conservar, Wojtila ficará na história como o cardeal Mastai-Ferretti (Pio IX), que abençoou o colonialismo e a repressão aos trabalhadores no século 19. Sobre sua alma pesará o martírio de D. Oscar Romero alvejado no altar, ao pé da Cruz, e em plena missa, em El Salvador, enquanto ele se preocupava apenas com Lech Walesa, a Polônia e o Solidarnosc. Os metalúrgicos do ABC também em greve, e sob a Ditadura, dele não tiveram uma palavra de ânimo. O catolicismo, sob seu pontificado, encolheu-se diante do protestantismo, das crenças orientais, do hedonismo. Ao proscrever a Teologia da Libertação, Wojtila entregou o povo de Deus da América católica ao bispo Macedo e a seus êmulos.
O conclave conseguirá encontrar novo Leão XIII, para tratar de Rerum Novarum, como fez o cardeal Pecci? Novo João XXIII, para recuperar, para a Igreja, a sua missão de Master et Magister?