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Outra coisa é a mesma coisa


Sem pretender entrar no mérito do destino que vierem a ter os presidentes do Banco Central, Henrique Meirelles, e do Banco do Brasil, Cássio Casseb, cumpre registrar que nenhum dos dois forneceu explicações rápidas, definitivas e muito menos inquestionáveis a respeito das denúncias que os atingem.

E essas coisas a gente sabe como funcionam: quando a desconfiança ronda a autoridade e a suspeita sobrevive ao primeiro movimento de defesa, há uma inevitável subtração de autoridade. Não obstante a permanência no cargo, o ocupante já não o exerce com pleno crédito de confiança.

Daí a necessidade de toda e qualquer acusação ser rebatida imediata e convincentemente. Figuras públicas não têm a prerrogativa de reagir com indiferença - mesmo para denotar, ou simular, inocência -, sob pena de combalir a instituição que representam.

Donde as reações quase sempre radicais, em países mais acostumados aos percalços da democracia, de autoridade flagradas em ilegalidades ou mesmo em situações meramente impróprias provocadas às vezes não por eles, mas por parentes ou subordinados.

A fim de preservar o espaço público, afastam-se de cena as pessoas físicas, quase sempre por iniciativa das próprias. Aqui ocorre o contrário: a interpretação vigente é a de que quanto mais se protege o ente privado alvo de suspeita, mais resguardada fica a integridade do cargo público.

E assim, episódios que poderiam ser rápida e facilmente resolvidos com a impessoalidade inerente aos negócios da República estendem-se em longos processos de desgaste, cuja única beneficiária é a oposição. Governo e sociedade só têm a perder.

Aqui nesse Brasil ainda noviço nas lides dos tais percalços democráticos, governos preferem defender-se tentando denunciar motivações escusas para as denúncias ou então criticando o fato de terem sido divulgadas.

É raro quando um acusado apresenta-se logo, seja para desmoralizar com base real e inquestionável a denúncia, para demonstrá-la despropositada e caluniosa - hipótese onde é imprescindível o imediato processo judicial contra o acusador ou o veículo de divulgação - ou para reconhecer o erro e ir-se embora.

Até por hábito social, somos por aqui os reis da dissimulação. Semana passada, quando surgiram as denúncias de que o diretor de Política Monetária do Banco Central estava em descompasso com a Fisco e o presidente do Banco dera declarações no mínimo dúbias à Receita em relação ao seu domicílio eleitoral, no primeiro momento, Luiz Fernando Candiota e Henrique Meirelles foram lacônicos, como que a esperar a repercussão ''na semana''.

Como foi forte, o diretor pediu demissão - aqui, registre-se, o BC agiu rápido, como devia, na substituição -, mas de Meirelles considerou-se aceitável a permanência no limbo de um ato mal explicado, ainda que menor.

Agora, o presidente do Banco volta à cena desta vez com acusações sobre a compra e venda de um imóvel numa operação cheia de detalhes esquisitos, um primo intermediário do negócio e portador de dinheiro vivo em quantia superior ao que a lei considera livre de controle.

Isso faz de Henrique Meirelles um cidadão infrator? Decerto que não, enquanto não se esclarecer direito o episódio. Mas, como autoridade pública, seu dever é não deixar dúvida e, no momento, é o que se tem. O fato de ele considerar-se ''tranqüilo'' não confere ao cidadão-contribuinte a mesma sensação por osmose.

Em relação ao presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb é exemplo típico do efeito cumulativo dos casos mal resolvidos. A denúncia de que tem conta no exterior não declarada - com depósito de US$ 600 mil - veio alcançá-lo ainda no curso do episódio da aquisição dos ingressos para show em benefício do PT.

Tivesse ficado isso devidamente revolvido lá atrás, Casseb não estaria agora refém de dois assuntos nebulosos e de natureza diversas. Pertencem à categoria do ''uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa'', mas estão irremediavelmente ligados para efeito de opinião pública.

A respeito dos ingressos, Casseb falou uma semana depois, reconheceu o erro, mas sua atitude já estava prejudicada pela demora e pela tentativa anterior de os dirigentes do PT imprimirem normalidade ao que era absolutamente anormal.

Quanto à suposta conta, o presidente do Banco do Brasil não teve condições ou vontade de pôr os pratos a limpo. Divulgou nota lacônica, também externando, como Meirelles, tranqüilidade quanto a si, mas deixou o principal sem explicação: há a conta ou não?

Outra vez sem pretender entrar no mérito do desfecho, cumpre lembrar que no governo anterior Francisco Lopes teve de deixar a presidência do Banco Central quando, numa ação policial de busca e apreensão em sua casa, foi encontrado um bilhete indicando a existência de conta no exterior, não-declarada.

Essa foi uma coisa. E a outra agora é a mesma coisa.

dkramer@jb.com.br


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[03/AGO/2004]


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