Cesar, de caso pensado com Lula

[28/JUL/2004]

Tecnocrata de origem, o prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, tem planejamento estratégico para tudo. Por isso, quando ele aparentemente contraria a orientação oposicionista do PFL, e faz reverências ao governo Lula - ''nunca a Prefeitura do Rio foi tão bem tratada'' -, convém não fantasiar alianças sem antes conferir as razões da fidalguia.

Por enquanto, são duas: buscar apoio do PT no segundo turno de sua disputa à reeleição e indicar ao eleitor pragmático que não é preciso votar no candidato do Planalto para assegurar à administração da cidade uma boa relação com os cofres federais.

Se ganhar, a motivação ganha amplitude. Cesar Maia pretende fazer do ainda hipotético terceiro mandato sua afirmação como político nacional a partir de um trabalho local de forte repercussão no país.

Para isso, precisa do governo federal. Há outras, mas a ação mais contundente nesse sentido será a hospedagem dos jogos pan-americanos de 2007. Não por acaso a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, reagiu com azedume explícito à vitória do Rio para sediar a competição, dada a chance de visibilidade intensa.

Cesar Maia pensa nisso quando prepara a moldura na qual pretende enquadrar o novo mandato caso venha, de fato, a conquistá-lo.

Em nome da organização de ação e pensamento na consecução de seus planos políticos, até por doido ele já se fez passar. Foi no primeiro mandato, em 1992, definido por ele agora como a fase em que precisava dizer ao público ''olha eu aqui''.

Para isso, varreu o chão do Sambódromo, comprou sorvete no açougue, vestiu casaco de lã debaixo de 40 graus; tanto pintou e bordou que quase perdeu o controle da coisa e, por pouco, o marketing não engole o marqueteiro. ''Quando percebi que estava caindo no ridículo, mergulhei.''

Voltou em 2000 discretíssimo e fazendo a linha administrador acima de tudo. É a fase de mostrar serviço, ''prefeitar'' sem arestas políticas públicas muito acentuadas.

Aqui é que entra o tratamento conferido ao governo federal: reconhece as questões pontuais positivas mas não perde oportunidade de fazer o confronto administrativo, como quando seu filho Rodrigo Maia, deputado federal, paralisou a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias no Congresso até a liberação de um crédito do Banco do Brasil para o Rio.

E o fez com a anuência e o apoio do PFL nacional, cuja direção dá carta branca a Cesar Maia no tocante à conformação do plano de vôo, já que ele é uma das possibilidades de candidatura própria do partido à Presidência da República em 2006 ou 2010.

''Se vier a me eleger pela terceira vez, não tenho mas de me preocupar em disputar espaço. Eu já existo e posso me preparar para horizontes mais largos.'' Quais sejam, o governo do estado ou a Presidência.

O primeiro projeto, na opinião dele, não representa desafio. O segundo entusiasma, mas particularmente não acredita que o PFL reunirá condições para apresentar candidato em 2006.

O plano seria, então, completar o mandato e apostar em 2010. Com 59 anos, tempo há. Mas haverá também espaço, considerando que o Rio de Janeiro não é exatamente um celeiro de lideranças nacionais e que Anthony Garotinho já semeia esse terreno?

''O Rio tem projeção e no mundo há vários exemplos de políticos que foram direto da prefeitura para a presidência.'' Cita Jacques Chirac, prefeito de Paris eleito presidente da França em 1995, e Jorge Sampaio, presidente de Portugal por dois mandatos a partir de 1996, depois de ter ocupado a Prefeitura de Lisboa.

Quanto a Garotinho, ele é uma outra razão de tantas gentilezas de Cesar Maia para com Lula. Já que o secretário de Segurança Pública tem como estratégia o conflito com o Planalto, o prefeito busca o contraponto fazendo caminho oposto. ''Para Lula não interessa ter um candidato de apelo popular como concorrente em 2006.''

O quadro sucessório obviamente tem lugar de destaque nas réguas e compassos da prancheta eleitoral de Cesar Maia. Ele acha que o presidente mudará a orientação da política econômica em 2005 a fim de tornar-se competitivo.

''Há uma clara tendência de aumentar o gasto público, partir para uma política keynesiana. Se o PT perder agora em 2004, essa mudança vai se acelerar'', analisa, sem descartar a hipótese de sucesso. ''A economia não se desmontará por isso, pois a expectativa de poder é o que conta.''

Seria esse o motivo de sua preferência por 2010? Também, mas o principal é a ausência de uma forte presença de seu partido no Sudeste e um quadro de racha explícito entre a ala oposicionista, de Jorge Bornhausen, a governista, de José Sarney, e a intermediária, de Antonio Carlos Magalhães. ''Sem unidade o PFL não vai a lugar algum e eu não vou à aventura.''

Quem, então, para 2006? Ele apostaria numa aliança em torno do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e, mais remotamente, na volta de Fernando Henrique Cardoso. ''Numa situação de débâcle, só ele teria a confiança da população.''

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