Depois de notabilizar a violência como forma de reivindicação, o MST amplia seus domínios para além da reforma agrária e estende a lógica da invasão para qualquer ato e qualquer vontade relacionada ao movimento.
E faz isso quase sob a indiferença geral, talvez pela evidência do quanto é inútil se apontar a gravidade e o inusitado da existência de um grupo de pessoas autorizadas a transgredir a lei, num gentil patrocínio do Estado, aí incluídos os governos federal e a maior parte dos estaduais.
Semana passada já havia soado esquisita a notícia da invasão da sede do PT em Itabuna (BA), pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, pois ali nada se decide a respeito de desapropriações.
No dia seguinte, ecoou temerária a informação de que o mesmo grupo invadiu a delegacia de outro município baiano (Aurelino Leal) para soltar dois sem-terra presos horas antes. Ambos saíram sob a égide da marra, e ficou assim tudo dominado.
Ontem, afigurou-se extraordinária (no sentido da extravagância) a história - publicada no Globo - de que o grupo invasor da sede do PT em Itabuna queria nada menos que pressionar o partido a abrir mão de uma vaga de vereador para cedê-la a um integrante do movimento interessado em disputar, mas impedido pela Justiça Eleitoral devido à redução do número de vereadores em todo o país.
O notável é que a meta foi alcançada. Um dos 18 concorrentes petistas desistiu - não por livre muito menos espontânea vontade, é claro -, o candidato do MST ganhou a legenda e os invasores retiraram-se satisfeitos.
O dirigente local do PT, Adeum Sauer, não pareceu espantar-se com o que viu. ''A ocupação faz parte da metodologia do MST. Eles adotam a pressão para alcançar seus objetivos'', disse, achando tudo muito normal.
Naturalmente, a ''metodologia'' será aplicada à ação dos parlamentares - desta vez só municipais - que o MST conseguir eleger. Donde é lícito imaginar que vereadores representantes do movimento adotem no exercício de seus mandatos ''a pressão para alcançar seus objetivos''.
Como a ''pressão'', de acordo com o entendimento vigente entre os sem-terra e aceito pelas autoridades e dirigentes partidários, não inclui a observância da lei, cabe a dúvida: aonde mesmo quer chegar o MST ao pretender eleger representantes populares para o Poder Legislativo?
Considerando seu desapreço à legalidade, deve ser para dar-se às burlas com a falta de cerimônia conferida aos donos de imunidade parlamentar.
Portanto, convém à sociedade - já que ao Estado nenhum argumento comove - muita precaução quando a ''metodologia'' alcançar a disputa pelas vagas ao Congresso Nacional.
Ponto final
Louve-se o otimismo dos partidários da tese segundo a qual o ministro José Dirceu ficou mais poderoso do que nunca ao assumir a nova Câmara de Política e Desenvolvimento Econômico, pois seria, assim, o responsável pela formulação das diretrizes do crescimento brasileiro.
Formular, Dirceu pode formular à vontade. Mas, para implementar, depende do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Lula criou uma capitania para o ministro da Casa Civil, mas na política econômica e no poder de Palocci, nem cogitou triscar.
Ao contrário, parece ter dito com o gesto que a brincadeira de fazer de conta em público que a condução da economia é uma questão em disputa, já cansou.
Santo de casa
A partir de agosto, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara vai fazer uma campanha entre parlamentares-candidatos, a fim de dar a suas excelências perfeito conhecimento a respeito do conteúdo da Lei 9.840, que proíbe a oferta, doação, promessa ou entrega ao eleitor, de vantagem pessoal de qualquer natureza, incluindo emprego ou função pública, ''a fim de obter-lhe o voto''.
Os autores da idéia, deputados Orlando Fantazzini e Chico Alencar, ambos do PT, consideram prudente a providência em virtude do que já se viu nas duas primeiras semanas de campanha. ''O mercado de votos anda intenso e o clientelismo em alta'', observa Alencar.
Fora d'água
Só agora, quando as expectativas a respeito do desempenho dos candidatos petistas já melhoraram consideravelmente, por causa da economia, é que se nota como o governo estava pessimista quanto aos resultados de outubro.
Até candidatos tidos como fora do páreo - Jorge Bittar, no Rio, e Nelson Pellegrino, em Salvador, por exemplo - já são tidos como capazes de ''tirar a cabeça fora d'água e enxergar a outra margem do rio''.
Isso não significa que o PT voltará a fazer previsões como aquela de quintuplicar o número de prefeituras país afora. A palavra de ordem agora é prudência.