Vida de governo é boa, mas, para os políticos, em campanha eleitoral vida de oposição é bem melhor. Disso o PT já desconfia, mas só tomará contato total com a nova realidade nas próximas semanas quando a campanha municipal ganhar corpo e ritmo.
Será a primeira eleição dos petistas como situação no plano nacional, o que demandará adaptações de discurso por parte de quem estava só acostumado a atacar e agora vai precisar se defender.
Integrante do grupo dos remanescentes defensores das teses originais do partido, o deputado federal Chico Alencar (PT-RJ) faz metáfora a respeito: ''Começa o campeonato, e, reconheçamos, a torcida não está animada a ponto de empurrar o time, até porque ele não joga com sua camisa tradicional e tem valores novos, que até ontem atuavam no time arqui-rival.''
O desassossego de Alencar, um dos 12 punidos recentemente com a segregação temporária, traduz uma situação mais ampla que a luta interna no PT; bate direto nos palanques onde os candidatos do partido terão de conviver com gente até outro dia inimiga e abraçar teses anteriormente repudiadas.
No que tange à temática, por exemplo, os petistas perderam a prerrogativa de atribuir todos os males do mundo à política econômica. Quem jogará nas costas do Planalto a culpa pelos infortúnios do universo será a oposição.
A ela caberá também a tarefa da denúncia, prática à qual o PT tem anos de dedicação intensa. Agora precisará se aquietar na marra.
Essa troca de papéis que há um ano e meio vem sendo exercitada no jogo parlamentar, em Brasília, agora será testada em escala nacional e terá como protagonistas gente nem sempre com experiência para tal.
Vai ser a primeira vez do PT sem a ajuda do discurso do ''contra isso tudo que está aí''.
Ao contrário, os candidatos do partido, até porque há orientação objetiva a respeito, deverão estar preparados para ser não apenas a ''favor disso tudo que está aí'', como também para propagandear ações governamentais como feitos dantes ''nunca vistos nesse país''.
Os candidatos, principalmente os das grandes cidades, ainda terão a ajuda das cartilhas especialmente preparadas com bons números para servir de munição e a presença de ministros bem treinados por esse um ano e meio de governo.
Já para a militância petista, a transposição de figurinos pode não se dar de forma tão tranqüila. Ainda mais que, por conta de alianças menos ortodoxas que o habitual do PT, os militantes ver-se-ão na contingência de atacar os seus e dar de braços a quem nunca lhes deu a mão.
Caso típico do Rio, onde a candidatura Jorge Bittar é aliada de Roberto Jefferson - homem forte de Fernando Collor - e de Jair Bolsonaro - defensor assumido do regime militar -, mas adversária de Jandira Feghali, cujo PC do B é dos mais tradicionais aliados do PT, desde a primeira candidatura de Luiz Inácio da Silva a presidente.
A questão é: o petismo, seus candidatos e militantes soarão convincentes aos ouvidos do eleitorado ou nem chegarão a isso, perdidos que ficarão vestidos com as roupas do adversário?
Agora sem metáfora, Chico Alencar arrisca um palpite: ''Suspeito, com tristeza, que veremos, nos próximos três meses, o PT da diluição tomar o lugar daquele velho PT da convicção.''
Como para governo o que interessa é a vitória numérica - o ganho político é vantagem para a oposição -, não será difícil que o pragmatismo acabe mesmo sendo generoso com o governo.
Resta saber se o será com o PT e também se isso, na atual conjuntura, faz parte das preocupações prioritárias do Palácio do Planalto.
Risca de giz
A adesão do PPS à candidatura do tucano José Serra em São Paulo significa exatamente o que parece: o ponto sem volta do partido em direção à oposição ao governo Lula, mesmo contra a vontade do ministro Ciro Gomes.
Aliás, as relações internas entre os grupos governista - minoritário, mas com apoio entre a bancada federal do partido - e oposicionista - majoritário na estrutura partidária - são inconciliáveis.
Ao decidir pela adesão ao tucanato na cidadela mais importante da disputa entre PT e PSDB, o PPS de Roberto Freire manda três recados ao partido no resto do país: o caminho rumo à oposição é inexorável, quando da formalização do rompimento com o PT o PPS não ficará isolado, e Ciro Gomes não será, nunca mais, candidato a presidente nem a vice pelo partido.