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Reflexo condicionado


Não é preciso muita ciência ou método para se constatar o que mostram as pesquisas de opinião desde o ano passado: a queda contínua na satisfação das pessoas com o governo eleito em 2002.

Se o ministro da Casa Civil, José Dirceu, como diz, dispõe de números diferentes - muito mais positivos - daqueles divulgados pela última rodada CNT/Sensus, isso não altera o ambiente de explícita insatisfação, nítido por toda parte que se ande.

Daí soar como mero contra-ataque a reação do ministro à pesquisa, dizendo que o governo não está preocupado, pois há 60 dias tem registros de crescimento da avaliação positiva. ''Pode perguntar ao Ibope'', recomenda Dirceu.

Pode até ser feito, mas o risco é a resposta não combinar com os fatos, tal como ocorreu em pleno curso do escândalo Waldomiro Diniz.

Formulada a pergunta ao Ibope a respeito do impacto político-eleitoral do caso, o instituto decretou: ''Impacto zero.'' E isso segundo informação do próprio governo que, tão logo recebeu o agrado em invólucro de rigor científico, tratou de divulgá-lo.

Mas vamos que haja mesmo uma pesquisa dando conta da melhoria nos índices de popularidade do presidente Luiz Inácio da Silva e de avaliação positiva do desempenho de seu governo.

Sob o aspecto substantivo, não muda rigorosamente nada. Os números servem para produzir declarações de gáudio, mas os festejos são efêmeros. Uma inversão do clima desfavorável só ocorrerá de forma consistente se puder ser sustentada em fatos.

E estes, realmente, não têm comparecido ao debate. Senão, vejamos, qual é - só uma, para não exagerar na exigência - a realização governamental que possa ser atribuída, da concepção à execução, à atual administração?

Para não voltarmos à campanha lançando mão da cobrança de velhas promessas, fiquemos com os compromissos novos assumidos já depois da posse. Nenhum deles sobreviveu ao momento em que foram expressos nas inúmeras manifestações de boas intenções contidas nos discursos presidenciais.

Nem citemos as reformas semi-aprovadas no Congresso, pois continuam em aberto, bem como as reformas política, trabalhista e do Judiciário. Dos projetos lançados ao vento, nenhum fincou-se à terra.

São ''esquecimentos'' que, obviamente, ficam registrados na mente das pessoas. Exemplo: o projeto de lei sobre os bingos, anunciado como urgente logo depois da rejeição da medida provisória no Senado.

A medida não tem grande importância para o geral da sociedade, mas o fato de ser simplesmente deixada de lado, como outras, ajuda a forjar a imagem de governo apto a falar, mas inepto no fazer.

A produção caudalosa de palavras sem resultado conseqüente, é claro, acaba minando a confiança e, com ela, a tão acalentada esperança.

Não é a dinâmica do contra-ataque, no caso de números negativos confrontados com números mais animadores, que vai provocar o avanço na confiabilidade de que tanto necessita o governo para se recuperar frente à população.

Sobre isso talvez fosse mais útil o governo refletir com serenidade, sem imprimir à discussão o caráter beligerante próprio de campanhas eleitorais, sem acreditar em fantasmas de conspirações inexistentes, deixando de lado o individualismo da briga por espaços políticos - notadamente o grupo de São Paulo, em estado de disputa aberta - e retomando aquele conceito de equipe (ou ''time'' no jargão presidencial) tão caro ao presidente logo no início de seu governo.

Ato inaugural

Além do cacoete de fazer o debate como se faz a guerra, o ministro José Dirceu não é o porta-voz ideal no quesito produção administrativa.

Há seis meses foi nomeado gerente plenipotenciário das realizações objetivas, encarregado de fazer os resultados aparecerem.

A primeira providência está sendo anunciada agora: é a criação da sala de investimentos do governo, na qual os empresários nacionais e internacionais teriam à disposição um sistema de resolução de burocracias e quaisquer entraves à realização de negócios.

O problema é que a medida já havia sido anunciada pelo presidente Lula no dia 11 de março, há mais de três meses, durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Pelo anúncio original, ficaria sob a coordenação do vice-presidente José Alencar. Além de divulgada agora como se fosse novidade, a ''sala'' mudou de chefe e de endereço mas ninguém se sentiu na obrigação de explicar por quê.

Zero a Zero

A rigor, não há diferença entre a sanção presidencial ao salário de R$ 260 e o veto à proposta de R$ 275. Em matéria de desgaste político, o conteúdo de ambos os gestos tem o mesmo efeito.


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[24/JUN/2004]


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