Reação excede a carência de fatos

[11/MAI/2004]

O artigo do jornalista Larry Rohter, correspondente do New York Times no Brasil, a respeito de presumida ''preocupação nacional'' em torno da quantidade e da oportunidade do consumo de bebidas alcoólicas pelo presidente Luiz Inácio da Silva, carece de sustentação jornalística.

Este é o único problema real de um caso que desde sábado à noite mobiliza o Poder Executivo e ontem mobilizou o Legislativo o dia inteiro. Como se não houvesse nada mais a fazer no país, além da produção de veemências à deriva por causa de um artigo de jornal sustentado em depoimentos anônimos.

Faltaram as evidências - e aí faltou tudo no que concerne ao jornalismo - de que os hábitos de conduta pessoal do presidente da República tenham relação de causa e efeito com as impropriedades ditas em público, aqui e no exterior.

Rohter faz um relato a respeito de rumores que, nem de longe, figuram na lista das principais preocupações nacionais em relação ao governo Lula. Estas são de natureza muito mais consistentes e de veracidade comprovada.

Não há fatos - só boatos - naquilo que, se tanto, poderia ter sido um relatório interno do correspondente para seu editor em Nova York a respeito de falatórios anônimos, sem demonstração factual. E sem isso não há notícia, há, no máximo, ilação.

Nessa perspectiva de (des) importância é que teria sido conveniente o tratamento dado ao assunto pelo Palácio do Planalto e pelos líderes políticos de situação e oposição.

À carência de informações da publicação, correspondeu uma série de excessos: da reação do governo brasileiro às interpretações segundo as quais há questões de soberania em jogo.

A nota oficial divulgada pelo Planalto no domingo chega ao detalhe de dar satisfações sobre a jornada de trabalho do presidente - ''amiúde se estende por mais de 12 horas'' - e de prestar contas sobre os hábitos sociais do chefe da nação que, segundo a nota, ''em nada diferem da média do cidadão brasileiro''.

Uma posição defensiva, como se o Palácio do Planalto achasse que era mesmo devedor de explicações.

Quanto à teoria da conspiração americana contra o Brasil, a serviço da qual estaria o New York Times e o correspondente do jornal, francamente, chega a ser constrangedora.

Pode ser até boa para alimentar conversas como as que sustentam o tão rechaçado artigo. Mas, quando transposta para o cenário da realidade mundial, soa a arroubo de província.

O tamanho do alvoroço, com convocação do porta-voz e nota oficial em pleno domingo, não teve o mesmo efeito que a quase indiferença teria sobre a credibilidade do material publicado. Ao contrário, ao desmenti-lo com minúcias, trata o relato como verossímil.

Objetivamente, a história serviu ontem a dois propósitos. À oposição apresentou-se excelente oportunidade para uma estudada exibição de bom-mocismo, ideal à estratégica de mostrar-se diferente do PT no trato ao adversário.

À situação ocorreu - passado o susto que produziu a defensiva nota oficial - superdimensionar o episódio para angariar solidariedade e apoio nacional em momento de queda de popularidade que se avizinha ainda mais acentuada.

Ambos podem ter tido sucesso, mas é êxito efêmero.

Fosse o presidente americano - ou qualquer outro governante - objeto de artigo de um correspondente brasileiro baseado em boatos sem procedência, com certeza absoluta ninguém, muito menos a Casa Branca, perderia tempo com o assunto.

O exagero e a afoiteza, está comprovado, são péssimos conselheiros. Abastecem a veemência, mas desidratam o discernimento e reduzem a capacidade do ser humano de dar às coisas a dimensão que elas realmente têm.

Tradução livre

Semana passada o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, deu uma interpretação muito particular à conversa com o presidente da República sobre a proposta de instituição do direito à reeleição para os presidentes das duas Casas do Congresso.

Naquele dia, duas horas antes de a comissão especial da Câmara votar a emenda, João Paulo assegurou a Lula que ela seria aprovada, como, de fato, foi.

O presidente então disse ao deputado que, nesse caso, se houvesse maioria favorável à proposta, ele daria seu apoio.

Ou seja, sendo majoritária a defesa da tese da reeleição, Lula não teria nada a opor.

O que é muito diferente de dizer que, como João Paulo afirmou pouco antes da votação e foi registrado pelos noticiários em tempo real, o presidente apoiava a emenda.

Um truque eficaz, mas de lealdade discutível.

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