Mau perdedor, o governo tentou amenizar causas e conseqüências de sua derrota na rejeição da medida provisória pelo Senado, virando o debate pelo avesso e distribuindo acusações à deriva.
O PT custa a aprender que o embate político pela via da desqualificação do adversário acaba rendendo constrangimento ao agressor.
Basta ver como soam agora as ofensas dirigidas no passado a gente hoje aliada ao PT e como parecem embaraçosas imputações de má-fé dirigidas a governos anteriores. A da perversidade contida na concessão dos reajustes do salário mínimo é apenas uma delas.
O mesmo descuido verbal verificou-se na conduta dos parlamentares governistas ao tentar atribuir aos senadores que votaram contra a MP dos Bingos relações suspeitas com a máfia da jogatina.
Fosse correta a linha de raciocínio, correto então seria dizer que o Palácio do Planalto também estava mancomunado com algum esquema espúrio quando nomeou no ano passado uma comissão interministerial para elaborar um projeto de regulamentação dos bingos.
E não era isso, tratava-se apenas de pôr em prática uma idéia até então muito bem recebida em administrações petistas, segundo a qual o dinheiro do jogo poderia financiar não apenas planos da área do esporte, mas também projetos sociais.
Veio o escândalo Waldomiro Diniz e, como se diz no ambiente político, o fato criou pernas e as pessoas perderam as cabeças.
Da mesma forma como na época tentou lançar ao debate a reforma política para mudar de assunto, o governo recorreu à proibição dos bingos para passar à opinião pública a impressão de que não mantinha relações com o assunto e muito menos tinha compromisso com seus personagens, pois um deles era protagonista do escândalo junto com Waldomiro.
Fez isso por medida provisória para obter efeito imediato. Se o presidente errou, se exagerou ou se extrapolou ao tomar atitude radical, importa pouco. Está feito e, agora, perdido.
Isso, no entanto, não dá ao governo o direito de agir com desfaçatez e, sem nenhum pudor, posar de mocinho, imputando aos adversários políticos a alcunha de bandidos.
Não se trata de um embate entre bonzinhos e mauzinhos, inclusive por não os há nessa história. A oposição, e mais alguns governistas movidos lá por seus motivos, simplesmente resolveu não corroborar o teatro e prestou, com isso, um bom serviço.
Primeiro, assumiu a prerrogativa parlamentar de rejeitar medidas provisórias consideradas irrelevantes e não-urgentes. O que não seria motivo de confusão alguma caso a prática fosse adotada regularmente.
Em segundo lugar, fez retornar a questão à estaca zero: o destino dos bingos. Admitindo-se, como querem fazer crer alguns, que o governo mudou de posição porque só depois do escândalo ficou sabendo das ligações criminosas dos chamados empresários do jogo, agora tem chance de lidar com o problema frente à realidade da qual tomou conhecimento.
Talvez fosse o caso de reconvocar a comissão interministerial que discutiu o assunto no ano passado durante três meses, para refazer o projeto que já estava pronto para ser enviado ao Legislativo.
Pelo menos foi o que anunciou o presidente da República no dia 15 de fevereiro último, em mensagem ao Congresso, lida pelo ministro José Dirceu.
Nesse novo cenário seriam corrigidas as deformações agora impostas ao debate e, mais importante, finalmente ouvido o Ministério Público que tantas tentativas fez para alertar o governo sobre a impropriedade da regulamentação e para mostrar as evidências de ligações entre os bingos e o crime organizado.
A estudada indignação exibida pelos líderes governistas com a dissolução moral instalada no país a partir da derrota da MP e as suspeitas lançadas sobre seus pares no Senado deformam o debate e buscam creditar na conta alheia o produto de um escândalo que não pertence à oposição.
Bicho 2
Se não mudou de idéia de fevereiro para cá, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, é contra a proibição pura e simples dos bingos, embora aponte a jogatina como uma grande lavanderia de dinheiro ilegal.
Thomaz Bastos é (ou era) contra proibir de vez, por receio de que o negócio de bingos transforme-se num ''jogo do bicho 2'', continuando a existir normalmente, mas na clandestinidade.
Na ocasião, o ministro achava que a solução mais conveniente seria a regulamentação e a submissão da atividade ao controle do Estado.
Modelo
As comparações que têm sido feitas entre José Dirceu e Fernando Collor, por causa das fotos do ministro da Casa Civil em poses de ginástica, são injustas.
Esquecem do general João Figueiredo, o pioneiríssimo no estilo.