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De pires (e pedra) na mão


Um ano depois de servirem de avalistas aos projetos do governo para as reformas tributárias e da Previdência, entregando as propostas com o presidente Luiz Inácio da Silva ao Congresso, os governadores voltam juntos a Brasília amanhã, desta vez para reclamar.

Por mais que tentem dar ao encontro um ar administrativo, na realidade os governadores farão uma manifestação política, cujo resultado não tem como ser favorável ao Palácio do Planalto.

Seja por falta de atenção ou erro de cálculo, o governo federal não deu a devida importância a essa reunião marcada há um mês por iniciativa dos governadores do PSDB.

Só na última terça-feira o presidente Luiz Inácio da Silva pareceu ser dar conta da realidade e transmitiu ao governador de Minas Gerais, Aécio Neves, sua preocupação.

Aécio disse a Lula para ficar tranqüilo, o encontro não seria contra o governo, mas a favor dos Estados.

Louve-se o esforço do governador, mas dá no mesmo, porque aí naquele ''a favor'' está contida uma série inesgotável de cobranças e um alerta para que Lula tome tenência da situação, assuma o leme e comece a governar.

Se isso não é politicamente do contra, Deus resguarde o presidente das críticas quando os governadores resolverem oficialmente fazê-las.

Mas, para todos os efeitos de aparência, os chefes de executivos estaduais passarão a tarde de amanhã em Brasília discutindo as finanças dos Estados num altíssimo nível de espírito de colaboração com o governo Lula.

Dos poucos a falar com clareza sobre o sentido real da reunião, o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, resistiu a confirmar presença - ''vou para não ser acusado de omissão'' - exatamente por considerar um tanto inadequado governadores se reunirem na capital sem agenda específica, à revelia do governo federal, num momento especialmente conturbado.

''Nunca vi uma coisa dessas, é o sinal mais evidente da desorganização da vida política nacional. Um encontro sem objetivo específico, reunindo 27 governadores insatisfeitos, não pode dar em boa coisa'', imagina Jarbas.

No que vai dar, o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, não sabe - ''o rumo das coisas será definido pela própria reunião'' -, mas considera inaceitável que não sejam atendidas pelo menos algumas das demandas dos Estados.

''Vamos adotar uma posição firme, que pode ser resumida numa palavra: cumpra-se'', diz Rigotto, lembrando as promessas feitas durante a negociação da reforma tributária, a demora na liberação de verbas de convênios e o alto percentual da receita obrigatoriamente reservado ao pagamento da dívida com a União.

Armas objetivas para pressionar, os governadores já não têm como tinham no ano passado quando o Planalto precisava deles para aprovar as reformas no Congresso.

A favor deles, entretanto, conta a situação de fragilidade política do governo em relação ao ano passado. ''Esse é um diferencial importante'', diz o chefe da Casa Civil do governo de São Paulo, Arnaldo Madeira.

Tucano como Aécio Neves, Madeira também adota o discurso administrativo - ''governador não tem de fazer protesto'' -, mas deixa o rastro político: ''Eles não tinham o Fora FHC? Então, agora nós temos o Governa Lula!''

Não há, entre os governadores, unanimidade de posições. Lá estarão desde os mais provocativos - como Rosângela Matheus, do Rio de Janeiro, e Roberto Requião, do Paraná -, até os mais conciliadores, como Cássio Cunha Lima, da Paraíba.

Ele acha que o ambiente vai esquentar a portas fechadas. ''E é natural que assim seja.'' Mas alerta para a necessidade de, publicamente, os governadores assumirem o apoio institucional ao Planalto. Foram nesse sentido as conversas de Cunha Lima nos últimos dias.

O governador pondera que o cenário nacional piorou muito desde o fim de março, quando os tucanos tiveram a idéia da reunião.

''De lá para cá houve os assassinatos dos garimpeiros, a rebelião dos presos em Porto Velho, o acirramento do Abril Vermelho, o conflito na Rocinha, uma série de episódios desagradáveis, que devem nos levar a uma atitude de responsabilidade.''

Sobretudo porque, argumenta o governador da Paraíba, em última instância todos os problemas em curso precisam ser enfrentados nos Estados. Neste aspecto acha que vale a cobrança por recursos federais.

''Estamos na linha de frente, somos a infantaria e não estamos recebendo provisões suficientes do general.''

Farinha pouca

Não caiu bem no Palácio dos Bandeirantes o comunicado do governo federal de liberação de R$ 1 milhão e 500 mil do fundo penitenciário.

Esse dinheiro é pouco mais de 10% do custo da construção de apenas um presídio no Estado.


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[25/ABR/2004]


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