Irritado com a falta de quorum na Câmara, o presidente João Paulo Cunha decidiu descontar o salário dos deputados que resolveram emendar o feriado de ontem e simplesmente não apareceram em Brasília a semana inteira.
Não vai adiantar nada. Os gazeteiros continuarão gazeteando e as excelências em geral permanecerão dando expediente semanal de três dias, completamente insensíveis às críticas e a um eventual corte de ponto que, aliás, ocorre apenas em casos escandalosos como este, do feriadão unilateralmente improvisado.
Desta vez, João Paulo sentiu-se pessoalmente premido a uma atitude que deveria ser corriqueira, se ele mesmo não considerasse perfeitamente natural o comparecimento apenas às terças e às quartas-feiras.
As manhãs de quinta não contam, pois são dedicadas aos preparativos de volta às bases, conforme atesta o movimento do aeroporto de Brasília nesses dias.
Quando se fala na necessidade de uma mudança de hábitos, o atual presidente - e também seus antecessores - discorda, sob o argumento de que os parlamentares ''já trabalham demais'' na capital e precisam dedicar tempo aos eleitores nos Estados.
Portanto, é essa a mentalidade que prevalece e não será um corte de salário provocado por arroubo de irritação ante a um episódio mais agudo que vai alterar procedimentos.
Inclusive porque o desconto deveria prescindir de decisão amplamente noticiada. Numa situação de respeito às normas, excepcional seria o pagamento integral aos faltosos e não o contrário.
Considerando a naturalidade da prática e sua aceitação ampla dentro de um Congresso cuja preocupação com desgaste perante a opinião pública é nula, restaria apenas um jeito de obrigar parlamentares a cumprir uma semana de trabalho razoavelmente decente em Brasília: a ameaça aos respectivos mandatos.
Se pouco se lhes dá o fato de terem sido eleitos como delegados de tarefas que são exercidas preponderantemente na capital, talvez mudassem de opinião caso o risco ultrapassasse a um parco desconto de salário de vez em quando.
Já houve isso na história recente do Parlamento. Durante a Assembléia Nacional Constituinte, o deputado Paulo Delgado (PT-MG) liderou uma ofensiva contra os gazeteiros. No ano seguinte à promulgação da Constituição, em 1989, os deputados Felipe Cheide e Mário Bouchardet foram cassados por excesso de faltas.
Ali pareceu que essa questão das faltas havia encontrado um paradeiro. E, de fato, teria encontrado não fosse a ação do corporativismo que, além de nunca mais ter se disposto a apoiar uma iniciativa como aquela, ainda deixou Delgado de fora de todas as disputas para funções eletivas dentro da Câmara.
Havendo interesse de alguma Mesa Diretora do Parlamento em dar um salto de qualidade na imagem da instituição, a aplicação do item do regimento relativo a faltas seria um passo e tanto.
Mas, aí, o requisito básico teria de ser a disposição de atuar em consonância com os ''de fora'', em detrimento dos interesse dos ''de dentro'', característica que suas excelências parecem ter perdido com a capacidade de se envergonhar diante de certas coisas.
Ação popular
Ainda falta consultar o PDT, mas o PSDB e o PFL já articulam a distribuição de abaixo-assinados pelo país todo pedindo a instalação da CPI dos Bingos.
A idéia é criar constrangimento ao Palácio do Planalto e ao presidente do Senado, José Sarney - nas mãos de quem ficou a decisão de não indicar os integrantes da CPI -, com a coleta de milhões de assinaturas durante meses a fio e, depois, a entrega diretamente a Sarney.
Com isso, a oposição pretende reacender a grita pela realização da CPI e ainda criar expectativa em torno da decisão do Supremo Tribunal Federal a respeito da obrigatoriedade ou não de Sarney instalar a CPI.
O julgamento do STF não tem data marcada, mas há quem aposte que Maurício Corrêa fará questão de presidir essa decisão antes de sua aposentadoria, em maio. O atual presidente do tribunal, inclusive, não anda fazendo muita questão de esconder este propósito.
Assim, assim
Falando a um grupo de empresários do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen, ouviu insistentes perguntas sobre o destino do atual governo.
Os empresários queriam saber se, na opinião dele, o governo Lula daria certo e se havia risco de um desastre. Bornhausen respondeu que nem um nem outro.
''Não vai dar certo, mas não vai haver desastre'', disse ele, enumerando os motivos: as instituições são fortes, não há interesse político em tornar o governo inviável e a economia pode piorar, mas não descamba.