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Nos jardins da Babilônia


Se por falta de senso ou se por excesso de cálculo, a razão não importa, a ausência de zelo republicano é a mesma e nela reside a essência da questão.

A estrela do PT plantada nos jardins do Alvorada não é o primeiro, não é o mais grave nem é o único sinal de que há uma acentuada mistura entre o público e o privado no governo do Brasil.

Não raro, as razões do partido se confundem ou mesmo se sobrepõem aos assuntos de Estado e isso já viu em diversas ocasiões em que o governo age como se a vitória eleitoral tivesse dado aos eleitos um certificado de propriedade política, partidária, social, cultural e intelectual do país.

Variando em grau de importância, são diversos os exemplos: do translado de um animal de estimação em veículo oficial, ao trânsito livre em palácio e comitiva oficial conferido ao tesoureiro do partido, passando pela ocupação da máquina administrativa e a concessão de salvo-conduto ao filho do chefe da Casa Civil para negociar liberação de verbas do Orçamento.

Não falemos em escorregões administrativos relativos a viagens e a ressarcimentos de diárias para ministros, pois são equívocos passíveis de correção e não necessariamente denotam desapreço aos ritos da representação oficial.

Fiquemos em demonstrações mais eloqüentes, como a demora do presidente da República em trocar o símbolo do PT pelo da bandeira do Brasil na lapela do terno.

Luiz Inácio da Silva só o fez depois da posse e, em seu primeiro encontro com George Bush, já eleito, lá estava ele com a estrela do partido no peito. A inadequação foi notada e provocou as primeiras críticas ao presidente.

Uma outra evidente impropriedade da mesma natureza - alvo de reparos discretíssimos - é a existência de um gabinete reservado a Marisa Letícia dentro do Palácio do Planalto, sem que ela disponha de função que justifique a estrutura.

Certa vez consultado sobre o assunto, o publicitário Duda Mendonça explicou que era importante para a imagem do presidente ela ficar sempre ''perto do marido''.

Esse tipo de recurso de identificação com o público pode ser eficiente do ponto de vista da propaganda, mas introduz no governo um fator de informalidade que, cedo ou tarde, acaba carecendo de alguma explicação.

Aparentemente pueril, a história da estrela nos jardins exibe falta de noção de que habitantes do Palácio da Alvorada não estão ali a passeio, muito menos para desfrutar de uma temporada de reverências. Há normas a obedecer.

Presidentes da República são hóspedes da residência oficial por um período determinado e, nessa condição, devem preservar e não adaptar um patrimônio público às suas conveniências, como se nele fossem viver o resto da vida.

O senador Tião Viana, a título de defesa da jardinagem amoldada à simbologia do PT, produziu um raciocínio segundo o qual ''Marisa deve ter o direito de plantar o que quiser e como quiser''.

Peculiar a concepção de coisa pública do senador. À Marisa e a qualquer outro cidadão brasileiro só é dado o direito de fazer o que quiser da forma como melhor convier até o limite da individualidade de cada um. O resguardo aos valores do outro se aprende em casa, é cláusula pétrea das relações civilizadas.

O exercício da representação impõe limitações óbvias, que o governo do PT insiste em transgredir como se a causa partidária lhe desse o direito de fazer como sugere o senador Viana.

A idéia de que a política sempre justifica os meios esteve presente nas razões apresentadas pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para explicar seu trânsito no poder, e nas explanações do ministro José Dirceu a respeito das liberações de verbas por interferência de seu filho funcionário do governo do Paraná e candidato a prefeito no interior do Estado.

''Ele faz política há muito tempo'', disse Dirceu, como se a militância suprimisse o caráter nefasto do tráfico de influência. Também Delúbio imprimiu naturalidade às suas andanças pelo Palácio do Planalto sob a justificativa de que, quando freqüenta gabinetes oficiais, está ''fazendo política''.

O episódio do jardim seria apenas uma ocorrência isolada, até mesmo algo pitoresca - como pareceu lá no início o caso do translado da cachorra Michele entre o Planalto e o Alvorada em carro oficial -, não fosse o conjunto de atos de indiferença às indispensáveis formalidades republicanas.

Diga-se, entretanto, em favor do PT, que nesse aspecto se manteve coerente. Na oposição, também se comportou como se o país começasse e terminasse nas fronteiras dos interesses do partido.

Daí o verbo fácil, o gesto solto, as imprudências e ligeirezas no trato das questões de Estado, a leviandade no manejo da reputação alheia, a precipitação nas proposituras inexeqüíveis e a irresponsabilidade na condenação de atos que depois, no governo, o partido se viu obrigado a repetir e, não raro, aprofundar.


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[18/ABR/2004]


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