Depois de desistir da reforma política por causa da pressão de partidos aliados, o Palácio do Planalto poderá ser levado a abrir mão também da idéia de mudar a Constituição para reeleger José Sarney como presidente do Senado.
Sob o compromisso da reserva, um destacado senador da base de sustentação governista resume a situação numa frase: ''O governo não tem mais força para impor esse casuísmo.''
Livre dos resguardos de aliado, o senador pefelista Jorge Bornhaunsen concorda inteiramente e aposta que a proposta - de benefício extensivo ao presidente da Câmara, João Paulo Cunha - ''morre na casca'', ou seja, não nasce.
De fato, o que parecia certo no ano passado, agora não é mais. Sarney pouco se mexe. Tudo ouve, tudo vê, movimenta discretamente peça aqui, peça ali, mas aguarda os acontecimentos.
Já seu oponente, Renan Calheiros, líder do PMDB, cobra do Palácio um acordo, segundo ele, firmado antes mesmo da posse de Lula, pelo qual desistiria de disputar a presidência do Senado em favor de Sarney em troca de apoio a sua candidatura em fevereiro de 2005.
E por que discutir esse assunto desde já?
Porque o Palácio do Planalto, forte durante a votação das reformas, achou que poderia usar sua influência para forçar a mudança das regras de eleição das direções das duas Casas do Congresso, dando, assim, mais um mandato para Sarney e João Paulo.
Nesse meio tempo, porém, a correlação de forças alterou-se. Na Câmara, nem tanto. O presidente João Paulo jogou muito mais afinado com os deputados do que com o Palácio e, com isso, reuniu condições de tentar aprovar a emenda sem depender muito do empenho do Executivo.
O problema é no Senado, por ironia onde o presidente se expôs abertamente para servir ao Planalto.
Sarney e seu adversário nessa disputa integram o partido majoritário da Casa. Em tese, ambos teriam condições iguais de pleitear a presidência, caso a Constituição não impedisse a repetição de mandato numa mesma legislatura.
Mas hoje, mesmo se não precisasse ultrapassar o obstáculo da votação de uma emenda, Sarney estaria em desvantagem dentro do PMDB.
O oponente joga duro e, porque não dizer, baixo: de um lado, põe a bancada contra o adversário mostrando que ele é amplamente atendido, enquanto os outros são deixados à míngua pelo governo; de outro, pressiona o Planalto condicionando - para usar termo leve - votações ao apoio à sua candidatura e ao atendimento fisiologista da bancada.
Por essas e algumas outras, o cenário aconselha ao Planalto distância; pausa para reflexão e articulação de uma saída que não desagrade José Sarney, mas também que não atenda Renan Calheiros, um santo em cujo altar Lula não deposita sua devoção.
É o desnorteio
A avaliação negativa do J.P. Morgan certamente servirá de argumento aos defensores do tal Plano B na economia do qual se falava, no início, para dar a impressão de que o governo sabia para onde ir depois de um período de ''transição''.
Os partidários da ''guinada'' agora falarão mais alto, mas o problema da tese é que o mau desempenho não se prende aos fundamentos básicos avalizados e respeitados por Antonio Palocci.
O que compromete é o conjunto da obra, a ausência de eixo decisório, a falta de rumo e o desnorteio geral.
De cadeira
''A leitura, para a criança, é o mesmo que uma esteira para as pessoas da nossa idade. Muita gente coloca até uma esteira no quarto, muitas vezes coloca até na beira da cama pensando: amanhã vou levantar e começar a andar na esteira. Mas todo dia se levanta com uma preguiça desgramada e vai ficando para o dia seguinte. Isso é como um livro para uma criança que não adquiriu no tempo certo o gosto pela leitura.''
A definição acima é de autoria do presidente da República, cuja opinião a respeito do hábito da leitura - comparando-o a um esforço físico tido como tedioso pela maioria - mais desanima que incentiva.
Pinga-fogo
O deputado Chico Alencar, signatário do documento petista da Semana Santa cobrando mudanças na economia, aposta que o partido ''vai mais fundo'' neste fim de semana, quando reúne o Diretório Nacional para discutir o assunto.
Alencar acha que é preciso falar mais claro com o ministro da Fazenda. Segundo ele, Palocci apontou nos petistas a ''doença infantil'' do esquerdismo porque não leu direito o documento cujo teor não pode, diz o deputado, ser reduzido a uma mera ''defesa da inflação''.
Bem humorado, o petista alerta: ''A superficialidade é doença senil de quem se julga com muito poder.''