Assim como Anthony Garotinho não percebe que seu inimigo principal no momento não está no Palácio do Planalto, Miguel Rosseto parece ignorar que o maior adversário do governo Lula, no momento, não dá expediente no Palácio dos Bandeirantes.
O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro escolheu brigar com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos - por suposto ''jogo de cena'' -, e o ministro do Desenvolvimento Agrário achou por bem repreender o governador Geraldo Alckmin por mostrar-se, na visão de Rosseto, pouco ativo frente às invasões do MST no Pontal do Paranapanema.
Deixando de lado o reduzido grau de autocrítica de ambos, tratemos do mal que os acomete: absoluta falta de noção de que o poder público só tem um lado, o da defesa da sociedade.
Dito assim, isso parece uma daquelas lições de almanaque bonitas de ver, mas incompatíveis com a realidade.
De fato, na prática não há governante que resista à utilização de seus instrumentos de poder para favorecer aliados e desfavorecer adversários. Como tal atitude diz muito a respeito do descrédito das pessoas com a política, com toda certeza ganharia bom crédito, e conseqüentemente vantagem eleitoral, quem começasse a agir diferente.
Inclusive porque nos dois casos citados os protagonistas vivem a ilusão de que agem em consonância com o eleitorado quando, na verdade, são percebidos como defensores de demandas específicas, em detrimento do interesse geral.
Há questões - a segurança é uma, a saúde e a educação outras - de Estado que não se subordinam a critérios pessoais, ideológicos ou partidários. Se acredita mesmo que a população do Rio vê suas atitudes como afirmação de altivez e firmeza administrativa, o secretário Garotinho está se deixando levar por um devaneio autodestrutivo.
O mesmo tipo de percepção deformada parece fundamentar a inércia federal ante o concurso do ''abril vermelho'', que chega agora ao meio do caminho (ainda faltam 14 dias para o fim) com invasões de terras em mais da metade dos Estados brasileiros.
Pois nem o morador do Rio está preocupado com o desempenho político-pessoal do casal governador, nem o estado de direito tem como referência as relações do PT com sua ''base social'', da qual faz parte o MST.
Foi-se há muito o tempo em que os sem-terra eram vistos com benevolência, e até simpatia, pela população. Hoje ocorre o oposto.
E não porque as pessoas estejam particularmente interessadas em defender propriedades ou proprietários rurais, mas porque todo mundo já notou que, seja qual for a transgressão, a conta da leniência cresce, fica enorme e, cedo ou tarde, é paga com a degradação do ambiente social hoje traduzida em banalização da violência.
É com isso que contribuem as autoridades quando fixam seu foco de ação nos respectivos umbigos.
Nada de novo
Uma tênue tentativa de dar um caráter nacional às ações de segurança pública, no governo Fernando Henrique, fracassou também em função de brigas de poder.
A idéia surgiu com a criação da Secretaria Nacional de Segurança Pública sob subordinação direta da Presidência da República.
O projeto previa uma integração de operações com os Estados - donos da prerrogativa constitucional de prover segurança às populações -, mas não foi adiante por causa da resistência da Polícia Federal em obedecer ordens da Presidência.
Colaborou muito com isso um dos inúmeros ministros da Justiça de FH - hoje líder do PMDB no Senado e aspirante a um ministério no governo Lula -, mais preocupado em jogar a PF contra o Planalto do que em fazer o seu trabalho.
Olho vivo
O presidente do Senado, José Sarney, assiste à movimentação do petista Aloizio Mercadante contra sua reeleição, não como um ato em favor da candidatura do líder do PMDB, oponente de Sarney, mas como uma forma de zerar o jogo e sair ele próprio candidato à presidência do Senado.
Por esse panorama, Mercadante apresentaria como compensação ao PMDB a possibilidade de o partido ocupar a presidência da Câmara.
Racha exposto
O presidente do PPS, deputado Roberto Freire, dedicou a semana à montagem da nova direção do partido. Com o propósito específico de isolar os aliados do ministro Ciro Gomes.
A começar pelo próprio que, na opinião de Freire, impede o PPS de ''fazer política''. Qual seja, a de se afastar cada vez mais do governo Lula.