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Que coisa mais horrorosa


O que falar sobre políticos que usam a segurança pública para fazer política no pior sentido do termo? Nada a dizer ou a fazer, a não ser tentar aprender alguma coisa com isso.

Por exemplo: o lado bom do bizarro espetáculo protagonizado pelo secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, coadjuvado pelo governo federal e patrocinado pelo narcotráfico, é a exposição sem retoques de um candidato à Presidência da República ao julgamento da população.

É de se ressaltar também a vantagem de podermos assistir como o poder central queda-se inerte, sob o tapume das restrições legais, ante a destruição da mais brasileira das cidades do Brasil.

Brasília limita sua participação à proposição de soluções pró-forma e, em boa medida, compactua com a insolência do secretário e da governadora Rosângela Matheus no trato da questão.

Está visto, posto, provado e comprovado que o aparelho de segurança estadual - seja ele comandado por quem for - não tem como enfrentar, muito menos melhorar, a situação porque o Rio está entregue ao crime. É a partir dessa constatação, portanto, que as autoridades devem agir e não tergiversar.

Se uma delas, no caso presente a estadual, resolve partir para a galhofa para supostamente ''desmascarar'' as intenções da outra (a federal) ao oferecer ajuda do Exército, se isso ocorre, como ocorre, a chefia da nação não pode ficar acuada diante disso, sob pena de tornar-se cúmplice pela via da omissão.

Ontem o secretário de Segurança fez um show-off por Brasília entregando ao Ministério da Justiça uma proposta que sabe inexeqüível, apenas com o objetivo de constranger politicamente o governo federal.

Aqui, Anthony Garotinho poderia argumentar que constrangimento político é exatamente o que o Planalto quer impor ao governo do Rio.

Se for isso mesmo, e não é difícil que seja, ambos estão tramitando numa esfera absolutamente distante daquela em que atua o cidadão que vota, paga imposto e é obrigado a conviver com a violência como se se tratasse de uma contingência natural da vida.

O jogo de empurra entre autoridades sempre existiu, em maior ou menor medida dependendo do grau de pusilanimidade de cada um.

O que estamos assistindo agora é mais que isso, é descaso, irresponsabilidade, crime de lesa-cidadania.

Que Anthony Garotinho tem um projeto político e usa o Rio e o cargo como instrumental, já se sabe. Que ele é atrevido e algo desmedido nas atitudes, também é de conhecimento geral.

A mera repetição dessas razões não basta como justificativa para a parvoíce de Brasília ante a enormidade do que se passa no Rio e que, de vez em quando, explode em guerras de quadrilhas nos presídios, nos morros, nas ruas.

E aí ocorre o de sempre: liberam-se uns tostões às carreiras, grita-se por socorro ao quartel, trocam-se desaforos aos microfones e depois acalmam-se todos até a próxima explosão que, então, desencadeia o processo outra vez.

Ou seja, enxuga-se gelo enquanto o narcotráfico finca estacas em bases sólidas.

O presidente da República faria um bem enorme ao mandato que recebeu das urnas se, no lugar de visitar maternidades e inaugurar pontes em redutos do PT, tomasse a si - com presença física e tudo o mais - a tarefa de ajudar o Rio de Janeiro a encontrar o retorno desse que hoje parece ser um caminho sem volta.

Palavra de general

O general Manoel Castro, chefe do Comando do Leste do Exército, nega que tenha mantido com o secretário Anthony Garotinho uma conversa nos termos aqui publicados ontem.

Segundo o relato, o general teria ficado atônito e surpreso ao saber da proposta de envio de 4 mil soldados para policiar quatro grandes morros do Rio e, nessa mesma conversa, apelado ao secretário para que desistisse do pedido.

O comandante confirma que recebeu telefonema de Garotinho, mas nega ter reagido da forma descrita - ''imagine um general ficar atônito e surpreso'' - e ter feito qualquer pedido de recuo a ele - ''não tenho nada que apelar ao secretário''.

Segundo o general, sobre a proposta ele apenas disse a Garotinho que ''dificilmente'' seria aceita pelo Exército. Sobre o restante da conversa, ele se recusa a dar sua versão. ''Não seria ético.''

Consulta prévia

O vice-governador do Rio, Luiz Paulo Conde, acabou pagando sozinho a conta da infeliz idéia de cercar com um muro a favela da Rocinha, mas antes de divulgá-la consultou a governadora a respeito.

Conde contou pelo telefone o que lhe ia à mente e ela concordou. Dizem agora que não prestou atenção direito na conversa.


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[15/ABR/2004]


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