Demitido ''a pedido'' - e não a bem do serviço público como, consta, determinou o presidente Luiz Inácio da Silva -, desobrigado até agora de dar explicações sobre suas atividades ilícitas no exercício de funções públicas, Waldomiro Diniz é um homem livre até do constrangimento de ouvir de seus ex-superiores qualquer orientação para que colabore para o esclarecimento dos fatos atinentes às suas falcatruas.
Esquisito é que ninguém mesmo pede a ele que se manifeste no sentido de livrar de uma vez por todas da suspeita de conivência não só o ministro José Dirceu com quem conviveu ao longo de 12 anos, mas também qualquer outro integrante de governos do PT em âmbito federal, estadual e municipal.
Desde o primeiro momento, quando foi chamado a dar depoimento na Polícia Federal, Waldomiro repete que só fala, só confia, na Justiça. Sorte dele que tem em quem confiar. Às pessoas que assistem perplexas a esse espetáculo de descompostura, é reservado apenas o dever de desconfiar.
Protagonista de um ato de corrupção explícito e de comprovação indubitável, Waldomiro Diniz circula pela cidade onde mora, Brasília, com a desenvoltura dos justos. Para todos os efeitos, não deve nada a ninguém.
E para todos os efeitos também, nada pesa contra ele a não ser a denúncia feita pelo Ministério Público 48 horas antes de o governo montar e espalhar a versão de que nas dependências da Procuradoria-Geral da República urdia-se uma conspiração para derrubar o ministro José Dirceu de seu posto.
Do jeito que as coisas vão, não é absurdo pensar na possibilidade de Waldomiro jamais precisar prestar contas de nada. Diz que só fala na Justiça - atitude típica de quem deve a alma ao diabo - , mas frente a ela só terá de comparecer se for alvo de algum processo.
No presente momento em que Waldomiro Diniz debocha - é de chorar vê-lo rindo em foto de jornal - de tudo e todos, e principalmente dos que exercem com lisura a função pública, não há sequer uma investigação em curso.
A denúncia do Ministério Público, envolvendo também diretores e o presidente da Caixa Econômica Federal, foi usada pela Polícia Federal para suspender as investigações que só serão retomadas caso a Justiça não acate a denúncia dos procuradores.
Ou seja, denúncia acatada, o caso acaba e denúncia não acatada, os interessados apresentarão ao respeitável público a ''prova'' de que o Ministério Público denunciou sem fundamento. Melhor cenário para Waldomiro e adjacências, impossível.
Ainda mais agora, com a tomada da cena pelo MST e a volta do debate interno no PT sobre as delícias da inflação. Quase ninguém mais presta atenção ao caso Waldomiro e quem ousar fazê-lo será visto com a desconfiança reservada aos patrocinadores de campanhas sórdidas. Os compromissados com a patrulha de fato ficarão intimidados.
Os outros, não. Justiça se faça, nem todos consideram essa uma página virada. Muita gente desconforta-se com o fato de o PT - incluindo aí os ditos radicais - aceitar a impunidade de um corrupto descoberto em suas hostes.
Mas o problema das peneiras é conhecido: elas não escondem toda a luminosidade do sol.
A conta da operação-abafa, não há dúvida, acabará saindo bem mais cara. Se já foi difícil - ou melhor, impossível - para o governo explicar o que fazia um autor de flagrante delito dentro do Palácio do Planalto, muito mais complicado será justificar a razão de mantê-lo impune sob a gentil conivência das autoridades constituídas. É o tipo da fatura cuja cobrança é como a justiça, tarda mas não falha.
Obsessão
Ontem fez cinco dias que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso publicou artigo manifestando suas primeiras críticas contundentes ao governo Luiz Inácio da Silva, e ainda havia gente respondendo a ele.
Do presidente da República ao presidente do PT, passando por líderes no Congresso e ministros de Estado, todos emprestaram a solenidade das funções que ocupam para expor a preocupação que têm com FH. Nem parece que praticamente acabaram de derrotar o ex-presidente numa eleição.
Seu doutor
Médico, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, aplicou Lênin na veia dos petistas que reivindicam aumento da inflação como via de crescimento econômico, apontando-lhes a doença infantil do esquerdismo.
Moderado e ponderado, Palocci limitou seu diagnóstico aos signatários do último documento em defesa da inflação. Mas, sem medo de errar, poderia estendê-lo a vários ministérios e ao próprio Palácio do Planalto, onde de quando em vez registram-se graves surtos da doença. Ofensivas do MST costumam provocar dessas recaídas.