O ministro da Casa Civil, José Dirceu, falou, prometeu falar mais e, de novo, abriu outra frente de trabalho para a oposição que, penhorada, só faltou agradecer antes de ir em frente.
Num discurso supostamente de defesa, foi ao ataque. Denunciando a existência de uma conspiração para desestabilizar o governo a partir da disputa eleitoral de outubro e insinuando possuir informações importantes às quais dará divulgação dentro de um mês.
Como se, por natureza, conseguisse obedecer apenas à dinâmica da provocação, mesmo quando a circunstância aconselha o apaziguamento, José Dirceu injetou mais oxigênio numa crise que se tem sustentado basicamente nos equívocos daqueles que, em tese, seriam os maiores interessados em encerrá-la.
Justiça se faça ao ministro da Casa Civil, nessa peculiar tática de manejo de crises, Dirceu teve a companhia ontem do presidente da República que também culpou a oposição pelas dificuldades em cartaz.
Mas o problema central do pronunciamento-desabafo feito por José Dirceu, para uma platéia de prefeitos do PT na noite de terça-feira, é que ali, além de fornecer matéria-prima nova ao adversário, ele não se posicionou bem do ponto de vista da sociedade.
Anunciou para daqui a 30 dias declarações com as quais pretende pôr ''os pingos nos is'' e não deixar ''nada sem resposta''.
Segundo ele, não o fez ainda nem o faz agora porque o momento não é ''adequado'' para revelar o que sabe. Mal comparando, o último a anunciar previamente importantes revelações frustrou expectativas e acabou vítima da própria insinuação.
No caso de oposicionistas mais afoitos, ainda se pode atribuir ameaças a descontrole exibicionista. Mas, de uma autoridade de governo espera-se a posse do domínio sobre as próprias palavras, atos e até mesmo pensamentos.
Ao anunciar-se conhecedor de fatos capazes de esclarecer um episódio grave e, ainda assim, postergar o comunicado desses esclarecimentos à nação, Dirceu confessou ocultação de informações e deu-se ao direito de manter o país em suspense pelo tempo que lhe for conveniente.
Passaram-se mais de 30 dias desde que o ministro José Dirceu falou pela primeira vez sobre o episódio Waldomiro Diniz. Foi na cerimônia de entrega da mensagem do Poder Executivo para o ano de 2004. Na ocasião, teve oportunidade de não deixar coisa alguma sem resposta.
Mas preferiu dizer que nada daquilo tinha importância, pois seu assessor havia sido pego em flagrante ilícito antes de integrar a equipe presidencial no Palácio do Planalto.
Logo se viu que não foi bem assim, e José Dirceu nada mais explicou a respeito do caso em si, limitando-se a ensaiar crises de consciência e arrependimento. Gestos concretos de reverência à opinião pública - como um pedido de desculpas explícito - não fizeram parte de seu roteiro.
Isso, evidentemente, ajudou a alimentar a animosidade natural que cerca os muito poderosos em geral e os arrogantes em particular.
Se, como anunciou o ministro, realmente daqui a um mês os ''is'' receberem todos os pontos e as respostas possibilitarem um esclarecimento definitivo de todas as dúvidas, menos mal.
Corre-se o risco apenas de as pessoas terem alguma dificuldade para acreditar em explicações fornecidas depois de dois meses de elaboração.
A cartilha
Do PMDB surgiu a idéia de elaborar código de conduta para enquadrar a base governista e evitar tiroteios internos.
Não fosse pitoresco o fato de o PMDB arvorar-se na tarefa de normatizar a conduta alheia, ainda resta a evidência de que compostura não requer regra, bastam modos.
No caso das relações parlamentares, há princípios elementares em vigor, cuja observância dispensa a existência de códigos.
Dez ocorrem de imediato à memória:
1. Não oferecer nem aceitar vantagens para trocas de partido;
2. Não afirmar hoje o que era negado ontem;
3. Não tergiversar sobre as evidências nem desprezar o discernimento alheio;
4. Não servir a dois, ou mais, senhores;
5. Não sobrepor os interesses individuais acima de todas as coisas, inclusive da Constituição;
6. Não promover o assassinato moral do próximo, tendo como recurso a leviandade e como escudo a imunidade;
7. Não desrespeitar a organicidade interna dos partidos e manter com eles relação institucional;
8. Não incentivar a traição à vontade do eleitor;
9. Não trocar votos por cargos;
10. Não dialogar com o Congresso através de interlocutores desclassificados.