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Ocultação explícita


Ainda que consiga barrar a instalação das comissões parlamentares de inquérito no Congresso para apurar as atividades dos bingos ou as operações de Waldomiro Diniz, o governo já atua em cenário politicamente adverso: o campo da batalha contra as CPIs, onde o PT sangra parte significativa do patrimônio de credibilidade acumulado durante duas décadas.

Nessa altura, é difícil distinguir o que é melhor para a oposição, vencer a briga pela instalação das CPIs ou estendê-la o maior tempo possível para expor o PT, e seus aliados, a um longo desgaste.

Considerando o caráter espetaculoso - e às vezes inútil - de comissões de inquérito requeridas nem sempre com ânimo investigativo objetivo, mas com a finalidade de levar o inimigo às cordas, é provável que aos proponentes em questão seja mais interessante ver os petistas renegando o passado e secando o estoque de argumentos para conquistar o eleitorado das capitais em outubro próximo.

Por isso, o partido e o governo fazem uma aposta arriscada ao jogar pesado contra as CPIs, no lugar de aceitar uma investigação negociada e preservar assim o princípio que sempre defendeu. Não resta dúvida de que para o PT o comando de operações-abafa provoca mais malefícios que a qualquer outro partido.

O PMDB participar do jogo, por exemplo, não causa estranheza, dada a vasta experiência do partido no tema. Mas no PT não encaixa nem mesmo os argumentos segundo os quais haveria prejuízos para a governabilidade e, além disso, a Polícia Federal e o Ministério Público podem perfeitamente bem cuidar do assunto.

Quando aludem à irresponsabilidade dos adversários para com o destino do país, os petistas acabam admitindo que em sua época de oposicionistas atuaram levianamente contra a nação, que - pelo raciocínio de agora - teria ido à matroca não fossem os governos de então competentes o bastante para barrar-lhes as intenções.

Em relação às investigações da polícia e do Ministério Público, antes eram tidas como insuficientes, suspeitas ou tímidas. Isso, justificava a necessidade de denúncias serem postas sob o crivo da política e, portanto, da exposição diária à opinião pública.

Até onde a vista alcança, o funcionamento de ambas as instituições não sofreu reformas com a troca de inquilinos do Palácio do Planalto.

Se suas investigações transcorriam muito longe dos olhos do público para o gosto do PT oposicionista, ou podiam sofrer ingerências do poder, o mesmo ocorre agora na era do PT governista.

A similitude das situações, aliada à gravidade não das acusações, mas dos fatos, torna complicada a situação do partido de Luiz Inácio da Silva.

Talvez não de imediato, dada a probabilidade de o Planalto conseguir seu intento. Mas ainda restam três anos e uma eleição para o PT conversar com o eleitorado.

E vai dizer o quê, depois de fazer toda sorte de concessões e avalizar todo tipo de artimanha para impedir uma investigação política no Congresso?

O pragmatismo - principalmente aquele sem limite nem parâmetro - não tem feito bem ao PT. A opção por uma atuação imediatista na política é baseada na crença de que para governos o fundamental é contabilizar vitórias, não importa o custo.

A nomeação de um desqualificado para ajudar a construir a maioria no Congresso, com delegação de autoridade para aliciar parlamentares a fim de imprimir rapidez ao processo, mostra como pode ser alto o preço cobrado pela afoiteza e a não-observância da compostura.

Ao enveredar com o mais absoluto desassombro pelo terreno da ocultação explícita, o PT perde a moral para cobrar. Seja do adversário que no futuro esteja no poder, seja do aliado, ou filiado ao partido, que porventura cometa impropriedades com a propriedade pública.

De Flamarion Portela, por exemplo, hoje nada poderia ser exigido. Nem de Benedita da Silva.

Tudo consta

Waldomiro Diniz se recusou a responder ao delegado da Polícia Federal se era sócio de alguma empresa ou se tinha conta no exterior. Não há princípio de inocência presumida que resista à impossibilidade de informar o básico.

Fora de hora

Anthony Garotinho escolheu uma péssima hora para seu giro político por Brasília a fim de capitalizar os dividendos da crise.

Realmente, o Rio de Janeiro de pernas para o ar - com assassinato de diretor de presídio e tiroteio em Copacabana - e o secretário de Segurança Pública, no noticiário cuidando de seus interesses partidários, conflitam com qualquer pronunciamento do governo do Estado sobre rigor no enfrentamento ao crime.


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[05/MAR/2004]


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