O presidente Luiz Inácio da Silva acha que a organização político-partidária do Brasil caminha para o bipartidarismo, ''no modelo mais moderno existente hoje na Europa''. Cita Alemanha, Espanha e França, onde, a despeito da existência de outros partidos, duas grandes correntes atuam em contraposição, capitalizando as preferências do eleitorado, como ocorre nos Estados Unidos, com democratas e republicanos.
Lula não detalha como se daria a divisão ideológica dessas duas forças, mas considera fortemente a hipótese de ''pessoas do PT'' e ''pessoas do PSDB'' virem a compor, juntas, um desses partidos. Não seria uma legenda com pretensões exclusivamente ideológicas - ''os ideológicos são sempre pequenos''; teria ampla base social, composta por gente muito mais afinada politicamente do que se vê hoje num mesmo partido.
O grande beneficiário desse sistema, na opinião do presidente, sem dúvida alguma seria o eleitor. ''As coisas ficariam mais claras, mais definidas, e os compromissos também mais firmes.'' Nomes dos políticos dos quais se afastaria ou se aproximaria nesse cenário bipolar, não diz por nada. Não parece minimamente disposto a ferir suscetibilidades presentes em nome de um futuro ainda incerto.
Fala-se na roda - sim, o presidente pôs-se na quarta-feira à noite a conversar durante três horas numa roda de 15 jornalistas - sobre seu bom diálogo com o presidente do PSDB, José Serra, e de sua suposta aversão por alguns personagens de partidos hoje aliados. Nem assim anima-se à nominata.
Aos tucanos, aliás, no momento dedica a previsão de uma grande derrota eleitoral em outubro. Na opinião dele, ninguém derrota Marta Suplicy em São Paulo. Serra? ''Ele não quer disputar porque sabe que vai perder.''
O presidente não vê chance de o discurso eleitoral ser nacionalizado com o propósito de fazer do pleito um julgamento de seu governo. Acha que a oposição manifesta essa intenção ''da boca para fora'' porque a federalização na opinião dele conta ponto a favor do PT por causa da sua popularidade.
Bem, mas e se tudo der errado e Marta perder em São Paulo?
Nesta hipótese, Lula reconhece, é derrota grande e de repercussão nacional.
De qualquer forma, o presidente não pretende mudar a rotina do governo em função das eleições. De alteração na política econômica para atender apelos a aumento de gastos públicos, não quer nem ouvir falar. Palocci está firme e forte. Já a equipe da Fazenda, o presidente transfere a questão ao ministro - ''quem trata do segundo escalão é ele''. Sobre juros e superávit primário, considera que os críticos dividem-se entre os que não sabem o que querem e os que não têm a mais pálida idéia a respeito do que falam.
''O superávit não dá para pagar um terço da dívida. É muito pouco para quem precisa, sobretudo, manter a credibilidade, esta é a palavra-chave.'' Quanto aos juros, ''esse pessoal que só se manifesta quando tem reunião do Copom não pode esquecer que a taxa hoje é alta, mas é a mais baixa dos últimos 10 anos''.
Trato mais flexível do Orçamento? ''Nem pensar!'' Entre a opinião dos técnicos do Executivo, que elaboraram uma proposta de R$ 402 bilhões, e a posição do Congresso, que acrescentou mais R$ 5 bilhões com base em previsões de receitas feitas pela assessoria técnica da Comissão de Orçamento, o presidente optou pelos cálculos da Fazenda e mandou bloquear a diferença.
''Era isso ou eu tinha de demitir todo mundo que elaborou a proposta orçamentária, a começar por mim que a aprovei.''
Mas, se na área econômica o mundo continuar rodando como se eleições não houvesse, no campo político o debate eleitoral altera projetos. Por exemplo, Lula não considera politicamente conveniente a discussão das reformas política e trabalhista neste ano no Congresso. Melhor em 2005, ''falemos aqui sinceramente''.
Bem menos delicadas do ponto de vista eleitoral, as reformas sindical e do Judiciário são, na visão do presidente, as ideais para compor a agenda de 2004.
Mesmo adiadas, Lula tem, sobre as outras duas, opinião formada desde já, embora ressalve que ela não irá, necessariamente, prevalecer. Na reforma trabalhista, ele propõe a flexibilização das normas, mas primeiro sugere que se esqueça o termo ''flexibilização'' - de uso corrente no governo anterior -, substituindo-o pela expressão ''liberdade sindical''.
A partir de contratos coletivos de trabalho, cada sindicato teria liberdade para negociar a aplicação das garantias de acordo com os interesses de suas bases.
Na política, Lula aposta no bipartidarismo, mas antes disso gostaria de ver o mandato de quatro anos - ''uma cretinice''- e a reeleição substituídos pelo direito a apenas um mandato ''de cinco ou seis anos''.
Para quando? ''2010 ou 2012''.