A queda na popularidade do presidente Luiz Inácio da Silva, por mais acentuada que tenha sido - como registrou a última pesquisa do Instituto Sensus -, não se refletirá no tamanho nem na consistência do apoio do governo dentro do Congresso.
A base parlamentar continuará grande e forte, até que premências eleitorais levem os partidos a adaptar suas convicções à realidade do momento. E a hora certa é ditada pela proximidade das eleições.
Não se trata de uma novidade nem de uma invenção do governo do PT, mas de um fato corriqueiro na vida política nacional.
Ocorreu no passado, ocorre agora e, se não houver avanços nas relações político-partidárias-eleitorais, ocorrerá sempre.
''Pesquisa de opinião não influi na conduta dos partidos no Congresso, assim como a posição dos políticos não influi na pesquisa'', diz o líder do PFL na Câmara, deputado José Carlos Aleluia, a propósito da redução de 18 pontos percentuais na popularidade do presidente. Para ele, ''há uma distância enorme entre representantes e representados. Eles só se encontram quando há eleição''.
Antes que Aleluia enverede na análise sobre os reflexos da pesquisa no comportamento da oposição, ele explica por que o que se fala nas ruas nem sempre se reflete no que se faz no Congresso.
''A oposição só aparece como tal em épocas eleitorais. No geral, o que preside as relações parlamentares não é o resultado de pesquisa, mas a disputa pela ocupação de cargos.''
Sim, mas o conceito se aplica aos partidos integrantes do condomínio do poder. E o PSDB e o PFL podem esperar ganhos políticos como conseqüência das perdas da situação?
Esperar, até podem. Mas, conseguir já é uma outra história que, na visão de José Carlos Aleluia, depende de empenho, tirocínio, um certo grau de desprendimento e, principalmente, ousadia.
Neste último aspecto, Aleluia identifica a maior falha dos partidos oposicionistas que reclamam muito da ofensiva do PT mas pouco se mexem e sequer dispõem de unidade interna para fazer o confronto.
''A oposição não bate no governo porque tem medo do contra-ataque do PT. Como os petistas foram muito virulentos na oposição, conseguem intimidar pela suposição de que o revide possa ter efeito desastroso.''
Na opinião do líder do PFL, trata-se de um erro. ''O PT, quando precisar, vai atacar como sempre atacou.'' Para Aleluia, a oposição já deveria estar se organizando para enfrentar a eleição municipal com um mínimo de articulação na composição das chapas e no discurso de palanque.
Nacionalizar ao máximo a eleição é, na opinião do deputado, o caminho correto. ''E bater, muito, no Lula'', acrescenta, justificando que, do ponto de vista oposicionista, a saída é impedir o presidente de ser o grande cabo eleitoral do PT. ''Ele é o pilar do governo.''
O cenário, reconhece Aleluia, não é dos melhores para a conquista de vitórias significativas - vale dizer, as prefeituras de São Paulo, Rio e Belo Horizonte - em outubro. O que, segundo ele, também não quer dizer que seja o caso de entregar os pontos.
Ao contrário. ''Dá tempo, mas é fundamental a fixação de um objetivo único: conquistar o forte e não ficar discutindo onde é a porta da fortaleza ou disputando para ver quem é o dono da herança.''
Calote
Alvo de 17 processos na Justiça, o segundo suplente Paulo Elifas tomou posse no lugar do senador Amir Lando, depois do impedimento do primeiro suplente, Mauro Calixto, alvo de 146 processos.
O novo senador tem vários tipos de processos: ações penais, cíveis, de reparação de danos, indenizatórias e execuções fiscais.
A respeito destas últimas, declarou: ''Isso aí é IPTU e ISS atrasados, coisa que acontece com qualquer profissional.''
Qualquer um que não pague as contas.
Faro fino
As divergências internas em torno da condução da economia, e principalmente os ataques implícitos e explícitos a dois integrantes da equipe de Antonio Palocci - Joaquim Levy e Marcos Lisboa -, têm provocado a curiosidade de analistas financeiros sobre o prazo de validade da política em curso.
Em resposta, ouvem de analistas da cena política que tudo depende dos índices de popularidade do presidente. Se se mantiverem num patamar razoável, a austeridade permanece.
Se baixarem a níveis indesejáveis, haveria o risco de Lula tentar inventar um novo governo, deixando, assim, mais forte o PT que ganhou a eleição em detrimento do PT que está governando.
Enquanto políticos inebriam-se com o poder de José Dirceu, o mercado trabalha de olho em Palocci.