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O ministro José Dirceu deu uma satisfação ao mercado financeiro, recuando da declaração de que a autonomia do Banco Central não está na pauta dos debates de 2004. A despeito do desmentido, não está mesmo, e qualquer político sabe disso.

Assim como ficou para 2005 a discussão sobre a reforma na legislação trabalhista, da mesma forma como, de repente, Olívio Dutra, ministro das Cidades, saiu das listas de demissíveis que freqüentava há meses.

O Palácio do Planalto anda querendo qualquer coisa, menos briga com a esquerda do PT. Pudera, depois de um ano de embates com os radicais, o governo pôde provar do veneno de outrora e constatar o quanto são desgastantes os conflitos quando o adversário tem pouco a perder.

De senadora com fama de temperamental, Heloisa Helena passou a heroína da resistência, figura de dimensão nacional.

Nunca também alguns grupos do partido tiveram tanto espaço nos noticiários como quando resolveram expressar suas discordâncias e foram, por isso, confrontados por petistas fiéis ao Planalto.

Estridente pela própria natureza, a esquerda é uma adversária perigosa. Principalmente para quem, como o governo do PT, que não quer dar a impressão de que se separou dela abandonando suas origens e boa parte de seu revoltoso charme.

Nada agradáveis seriam as campanhas eleitorais a iniciarem-se em breve, com os dissidentes do petismo a denunciar por todos os cantos do país o que consideram a rendição do partido ao grande, e terrivelmente mau, capital internacional.

Por esta e por algumas outras mais, cumpre dar crédito à manifestação do ministro José Dirceu quando deu vazão à sinceridade de pensamentos e oficializou o já sabido: o governo quer distância de polêmicas para enfrentar o teste da sua primeira eleição a bordo do poder central.

No caso da autonomia do BC, é possível ter início alguma discussão, a fim de dar uma satisfação aos mesmos ansiosos espectadores da aprovação das reformas, algo também só para estrangeiro ver.

Ao governo precisaria faltar noção do que seja conquista de poder e tino sobre o efeito ruinoso de um ataque da esquerda - ora em posição de vítima - na eleição, é que o governo forçaria a mão para votar a autonomia do Banco Central no Congresso.

Se mais não fosse, porque teria necessariamente de contar com o apoio do PFL e do PSDB, cuja boa vontade, convenhamos, deverá ser, em 2004, bastante mais reduzida do que a exibida em 2003.

Propor a autonomia para perder, seria de uma tolice abissal. E ficar na mão do adversário em ano de eleição dispensa apresentações em matéria de impossibilidade.

Donde, portanto, configura-se perda de tempo acreditar em quaisquer discussões ruidosas neste ano da graça de 2004, a partir do qual o PT pretende consolidar seu projeto de expansão política, social e até mesmo cultural.

Para isso, quanto menos acirrados estiverem os ânimos, tanto melhor.

Olho por olho

Depois da liminar suspendendo a exigência de identificação para americanos no aeroporto do Rio de Janeiro, a sensatez começa a exibir voz mais ativa.

Primeiro petista a se manifestar explicitamente sobre o tema, o secretário de Relações Internacionais do partido, deputado Paulo Delgado, não gostou da exigência. Acha que o juiz de Mato Grosso equivocou-se na interpretação do princípio da reciprocidade.

''Não levou em conta que o conceito existe para preservar a equivalência dos países na civilidade e não no arbítrio'', considera Delgado, acrescentando o exemplo: ''Pelo raciocínio do juiz, se os Estados Unidos, onde há pena de morte, executassem um brasileiro por crime hediondo, estaríamos obrigados a mudar nossa legislação e executar um cidadão americano.''

O deputado reconhece que a tese do juiz faz sucesso junto à opinião pública. ''Mas, até por uma questão de legítima defesa, a opinião pública sempre quer retaliação; não podemos usar essa medida'', pondera.

Na opinião de Paulo Delgado, anda faltando é assertividade na atuação diplomática das representações brasileiras. ''Da mesma forma como a diplomacia em Roma não alertou o governo que a Parmalat não era uma empresa idônea, a diplomacia em Washington não soube fazer ver ao governo americano que o Brasil não é uma área de risco terrorista.''

Consolação

Foge à lógica a razão pela qual o governo entregou ao Ministério da Defesa a ressurreição do Projeto Rondon, uma ação de natureza educacional.

A menos que esteja querendo dar aos militares um prêmio de consolação pela ausência de verbas. Como diz um especialista nas artes da ironia: ''Na falta de tanques, deram estudantes.''


[13/JAN/2004]


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