Entre as diversas hesitações que tomam conta do PSDB e ainda impedem o partido de, um ano depois da derrota eleitoral, encontrar uma diretriz nítida como oposição está o apoio ou o ataque à política econômica em vigor.
O novo presidente do partido, José Serra, atacou, rechaçando o paralelo entre o que faz o atual governo e o que fez o anterior porque, na concepção dele, o PT aplica doses exageradas de um remédio com prazo de validade vencido.
Esta mesma visão permeou o seminário promovido pelo Instituto Sérgio Motta, semana passada em São Paulo, que reuniu uma série de profissionais com afinidades tucanas - não necessariamente gente do PSDB - para refletir o Brasil sob os aspectos econômico, social e político.
Mas, a despeito de o pensamento predominante entre os expositores ser alinhado ao grupo que no governo Fernando Henrique Cardoso sempre foi contra a política adotada por Pedro Malan, também freqüentaram o debate alguns representantes do outro grupo, o que permitiu perceber com clareza a divisão.
Pessoas como Clóvis Carvalho - ex-Casa Civil -, Eduardo Graeff - ex-assessor especial - e Arnaldo Madeira - ex-líder do governo na Câmara _ obviamente não gostaram nada de ouvir as críticas pesadas à adoção, pelo governo Lula, do chamado malanismo.
Para eles, fazer oposição por aí equivale a renegar o governo Fernando Henrique. Na opinião de Madeira, hoje secretário de governo de Geraldo Alckmin, ''Esta é a questão central que temos de superar e, a meu ver, ainda levaremos tempo para isso''.
O ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, presidente do Instituto Sérgio Motta, promotor do encontro e um crítico contumaz da linha Malan apoiada por Fernando Henrique, não se perde em rodeios: ''Mais dia, menos dia, vamos ter de enterrar esse cadáver, não tem jeito.''
O defunto em questão é a política econômica adotada pelo PT que, na opinião de Mendonça de Barros, não tem a menor chance de dar certo - ''a não ser para quem quer ganhar dinheiro no mercado financeiro'' - e deveria ser duramente combatida pelo PSDB.
Sim, mas como fazer isso sem parecer à opinião pública oportunista e contraditório?
Daí a necessidade do enterro, o único jeito, de acordo com o ex-ministro das Comunicações, de os tucanos ficarem livres do constrangimento e contestarem com firmeza o governo do PT no ponto que realmente interessa em matéria de disputa de poder: a economia.
Ele concorda com a dificuldade de se fazer isso apenas relembrando que boa parte do governo FH era, desde o fim do primeiro mandato (alguns até antes disso), radicalmente contra a política econômica.
Mas Mendonça de Barros aposta na mudança gradual de posições e na inevitável prevalência do pensamento de seu grupo. O deputado Custódio Mattos, futuro líder da bancada tucana na Câmara, corrobora essa aposta quando se diz, ele mesmo, um antigo ''malanista'' agora já em fase de mudança de posição.
''Eu estava convencido de que a única maneira de lidar com a economia era aquela, mas hoje já não tenho a mesma certeza'', afirma, reproduzindo o pensamento da maioria da representação parlamentar do partido, ''à exceção do Arthur Virgílio''.
Um dos mais renitentes e agressivos críticos do atual governo, o líder do PSDB no Senado é contra o ataque à política econômica, por uma questão de lealdade ao passado. Como outros adeptos desse pensamento, Virgílio acha que, no lugar de renegar a política econômica, vale mais a pena ressaltar a contradição do PT por tê-la adotado.
Xis da questão
Já o filósofo José Arthur Gianotti deixa transparecer uma certa impaciência com esse tipo de discussão. O ponto central para o bom exercício da oposição, para ele, é a busca do rumo certo.
E, para isso, os tucanos precisam combater o PT no terreno do simbólico. ''O PSDB é bom no racional, mas não sabe trabalhar o emocional da população'', diz, defendendo a tese de que FH não ganhou a eleição ''por causa da racionalidade econômica.''
Ganhou, ''por causa do mito da racionalidade econômica'', numa referência ao simbolismo que o eleitorado buscava no momento de hiperinflação.
O ''mito'' mais eloqüente do governo hoje, segundo Gianotti, ''é o mito da fome''. Encontrar um tema (ele sugere, por exemplo, o emprego) que faça o contraponto é, na opinião dele, o grande desafio da oposição.
O demolidor
Convidado como debatedor na área política, o líder do PFL na Câmara, José Carlos Aleluia, fez o maior sucesso entre a intelectualidade tucana.
Notadamente ao definir a tarefa da oposição: ''Acho o PSDB muito preocupado com a governabilidade. Na oposição, a tática deve ser a da demolição. Tática da construção é para quem é governo.''