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Serra marca Lula 'homem a homem'


Sem agressividade na forma - ''não é o meu estilo'' -, mas contundente no conteúdo, o novo presidente do PSDB, José Serra, promete marcação ''homem a homem'' em relação ao governo Lula, para ele, muito parecido com ''uma ONG'' .

Adversário do PT no turno final da eleição presidencial, Serra voltou ontem - na convenção do PSDB que o elegeu presidente - à vida pública depois de quase um ano de pesquisas e palestras na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

Nesse período, ficou propositadamente em silêncio, apenas com vindas periódicas ao Brasil para articular a eleição à presidência do partido.

Chegou a ser cogitado como candidato à Prefeitura de São Paulo, mas seu projeto de futuro não passa por aí. Na concepção dele, é mais prudente firmar-se como líder de oposição e, mais à frente, decidir o que fazer em função da popularidade e da confiabilidade de que estiver desfrutando o governo.

Até lá, é o combate sem trégua.

''Vai aumentar muito a cobrança em relação à política econômica'', adianta, acrescentando, para quem estranha, que esta adotada agora não pode ser vista como uma continuidade da política do governo anterior.

Além de muito mais ortodoxos e adeptos de opções criticadas pelo então ministro na administração Fernando Henrique - como o câmbio valorizado, por exemplo -, os petistas, na concepção de Serra, não estão praticando a disciplina fiscal como alardeiam.

Cita o comprometimento orçamentário resultante das negociações das reformas tributária e da Previdência com os governadores. Segundo ele, a visão que o presidente da República tem de negociação é de sindicalista, não de governante.

''Ele acha que, no governo, pode negociar como negociava antigamente com os patrões. Não pode. Com os governadores, por exemplo, não entendeu que sempre tentam arrancar o máximo possível da União e, se não fizessem isso, não seriam bons governadores.''

Num entendimento como esse, aponta Serra, não se levam em conta questões como inflação, déficit ou câmbio. Não é possível, sem que haja um grande prejuízo para a União, simplesmente fazer um acordo de toma-lá-dá-cá.

Serra pretende pegar ponto a ponto as políticas, medidas e atos governamentais e dissecar tudo em cobranças permanentes. A idéia não é fazer uma oposição que torce para dar errado, mas mostrar o que está sendo feito de forma equivocada.

Quando for possível e conveniente - ou seja, sempre -, ressaltar comparações positivas com as administrações tucanas. Não apenas a federal dos últimos oito anos, mas também as estaduais e municipais.

E é em relação ao poder local, em disputa no próximo ano, que reside o desafio mais imediato do novo presidente do PSDB.

''Vamos ter de unificar a linguagem, pois o discurso certamente será de polarização com o governo federal'', diz ele, imaginando que não há hipótese nem remota de se pensar ainda numa aproximação entre PT e PSDB.

''O ano que vem não é propício ao cultivo de alianças com o PT'', afirma sem entrar em detalhes a respeito do futuro.

Aos governadores e prefeitos que porventura estejam imaginando acertos eleitorais a fim de obter benefícios administrativos, Serra alerta para o fato de que o poder de negociação dos governantes com o Planalto será maior quanto mais forte, e, portanto, independente, estiver o PSDB.

Em relação ao seu projeto individual, Serra considera cedo para vislumbrar caminhos. O governo de São Paulo talvez fosse o curso natural, ele ainda não sabe.

Da Presidência da República, nem comenta, tal a sorte de obstáculos, inclusive internos, a serem transpostos.

Até lá, terá dois anos para dedicar-se ao exercício livre da crítica ao governo, agora sem o constrangimento que lhe foi imposto pelas circunstâncias nos últimos oito anos.

Tal e qual

A indiferença aos direitos dos beneficiados pelas leis de anistia não é exclusividade do governo federal. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin também não paga as indenizações a que fariam jus cerca de duas mil pessoas.

Como em Brasília, inexistem explicações para a decisão de simplesmente não pagar o devido pela lei. Em ambos os casos, os atuais governantes não cumprem normas aprovadas por seus antecessores.

No caso de São Paulo, a lei é do governador Mário Covas e beneficia apenas pessoas torturadas e famílias de mortos ou desaparecidos nas dependências do Doi-Codi.

Irritado com a situação, o ex-secretário de Justiça de São Paulo, Belisário dos Santos Júnior, há dias deixou a comissão que tratava do assunto no governo do Estado.


[22/NOV/2003]


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