O tucanato, penhorado, agradece os recentes ataques do ministro José Dirceu ao governo de Fernando Henrique Cardoso. Há um bom tempo, desde a derrota na eleição, o PSDB andava à procura de algo que unisse o partido.
Primeiro, os tucanos tentaram construir esse amálgama através da palavra de Fernando Henrique. Por isso, contrariando o que prometera, o ex-presidente deu tantas entrevistas, manifestou-se tanto nos primeiros meses de governo Luiz Inácio da Silva.
Era uma tentativa de dar unidade ao discurso do PSDB, zonzo entre partir para a oposição desenfreada e prestar homenagens à coerência, por causa das reformas e da política econômica importadas do governo anterior.
Pois FH falou, falou e os tucanos continuaram cada um para o seu lado, alguns até achando estranho o fato de o ex-presidente falar.
Sem pretender o exagero de atribuir a José Dirceu também o poder de comando sobre o PSDB, cumpre registrar a consecução da unidade, agora, através do chefe da Casa Civil.
No primeiro ataque, o ex-presidente divulgou ele mesmo uma nota de resposta. Mas, no segundo, apenas quatro dias depois, o PSDB uniu-se na réplica. A nota rechaçando José Dirceu, e reafirmando a profissão de fé tucana, foi assinada pela bancada da Câmara; ela teve o apoio do partido, aí incluindo os governadores há tempos em dissonância com a maioria dos deputados federais.
Os tucanos reuniram-se sem divisões de discurso e, numa semana prevista para transcorrer ausente de polêmicas, sob a égide do aniversário presidencial, foi criado um bom fato para a oposição.
Desse modo, sobra a questão: o que levou o ministro da Casa Civil a repetir um gesto contraproducente?
A única explicação é que o tenha considerado producente. Mas, foge à compreensão o interesse mobilizador. Bate-boca, troca de desaforos, essas coisas em geral interessam a quem precisa de espaço, de palco. À oposição portanto, não ao governo.
Ela é o lado mais fraco, mais sem instrumentos, sempre à espera de que a tirem para dançar e ofereçam uma oportunidade para aparecer. Foi exatamente o que fez José Dirceu.
Se o fez sem estratégia, intriga o porquê do segundo ataque. Se há um plano, carece de lógica.
Imaginar que o objetivo do ministro tenha sido ressaltar os defeitos do antecessor perante a platéia de líderes da Internacional Socialista, seria pueril.
Acreditar que a razão seja a pesquisa de dias atrás revelando queda na boa percepção da eficácia governamental, seria simplista.
Apostar numa reação pré-eleitoral ao anúncio de que os tucanos usarão o primeiro time - FH, José Serra e Geraldo Alckmin - contra Marta Suplicy, seria imaginar que o governo não está seguro da reeleição da prefeita.
E, como nada disso acontece, só o tempo resolverá o enigma do bate-boca fora de hora.
Mero pretexto
O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, é um homem de aguçado senso de oportunidade. Já vinha ele há muito tempo criticando o governo, dando sinais evidentes de que só esperava um bom pretexto para oficializar a distância.
Pois não é que a chance surgiu na mesma semana da divulgação de pesquisas mostrando a queda na popularidade do presidente da República?
No domingo, a revista Veja publicou reportagem sobre o arsenal de campanha reunido pelo PT contra os adversários de Lula. Paulo Pereira, candidato a vice de Ciro Gomes, revoltou-se.
Como se nunca tivesse ouvido falar em guerra de informação em campanhas eleitorais, nem no extenso documento sobre desvios de verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador existente na Corregedoria Geral da União, reagiu indignado.
Suspendeu suas relações com o governo, desligou-se do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, e levou a Força Sindical para a oposição, ''até que se esclareçam os fatos''.
Considerando serem esses fatos todos atinentes a uma circunstância individual - a candidatura a vice - conviria pelo menos consultar os filiados à Força Sindical para saber se concordam com a mudança de rumo coletivo.
Mestre da obra
Duda Mendonça é mesmo um ás da imagem. Sua última façanha desmente dois ditados: prova que santo de casa faz milagre, bem como o espeto na casa do ferreiro não necessariamente é feito de pau.
O marketing em causa própria que armou nos últimos dias, a fim de prevenir desgastes e problemas mais graves decorrentes da impressão de excesso de poder, foi obra de mestre.
E ainda conseguiu ocupar a cena principal dos assuntos governamentais por três dias seguidos.