Afinal, até agora não ficou claro se o governo achou bom ou ruim a ministra da Assistência Social, Benedita da Silva, ter ido a Buenos Aires para cumprir agenda de foro espiritual com despesas pagas pelo Tesouro no melhor hotel da cidade, o Copacabana Palace de lá, no dizer dos argentinos.
E não ficou claro porque não há nitidez de conduta.
Num dia o Palácio do Planalto silencia sobre o episódio; no outro faz vazar ''informações'' pela boca dos governadores, dando conta das reclamações do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, a respeito de Benedita.
Segundo aqueles autores, Dirceu estaria absolutamente indignado com a atitude da ministra, de quem esperava a devolução do dinheiro e a entrega do cargo ao presidente.
Qual não é a surpresa quando, no dia seguinte à circulação daquela versão, o presidente Luiz Inácio em pessoa diz ter aceitado as desculpas da ministra, reafirma sua continuidade no cargo e ainda informa: ''Ninguém vai colocar ou tirar ministro com notícias de jornal.''
Na opinião do presidente, conhecida ontem, uma semana depois da viagem de Benedita da Silva, a ministra cometeu um ''erro administrativo'' plenamente justificável.
Ou seja, há discordâncias profundas no governo a respeito do que seja ou não considerado falta grave em relação ao comportamento dos ministros. Ou talvez não haja divergência alguma, seja um jogo casado, o clássico morde e assopra.
Se não sonharam nem agiram de má-fé os senhores governadores ao transmitirem a opinião do ministro sobre o caso, José Dirceu considera inadmissível um integrante do governo gastar dinheiro público para pagar despesas particulares. Mas o presidente da República não, contenta-se com um pedido de desculpas. Esquisito, pois não?
Ainda mais que as escusas, se realmente apresentadas, contrariam o discurso da ministra Benedita. Ainda ontem ela declarava-se dona de inteira razão no episódio, fruto, na sua versão, de um equívoco de assessoria na divulgação da agenda.
Seus assessores, de acordo com a ministra, esqueceram de pôr na lista de compromissos toda a série de encontros profissionais marcados em Buenos Aires, registrando apenas o encontro evangélico.
Ora, se não houve ato danoso, do que mesmo desculpou-se a ministra junto ao presidente, de ter uma assessoria incompetente?
Não parece ser o caso.
Francamente, olhando assim de fora, sem saber da missa a metade, a impressão que dá é que Benedita da Silva está sendo incinerada em praça pública a fim de facilitar o caminho de sua saída do ministério.
Grampo compensa
Denunciados ao Supremo Tribunal Federal junto com o senador Antonio Carlos Magalhães, a ex-secretária de Segurança da Bahia Kátia Alves, o delegado Valdir Barbosa e o assessor Alan Farias não foram abandonados ao sereno pelo governo baiano.
Os dois policiais foram afastados de suas funções - o primeiro já reintegrado - mas nem por um dia deixaram de receber salários. Quer dizer, ganharam licença remunerada.
Já a ex-secretária, em cuja gestão deu-se o esquema de escutas telefônicas ilegais, está devidamente instalada na Diretoria de Administração e Finanças da Empresa Baiana de Águas e Saneamento, Embasa.
Um dos crimes aludidos pelo procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, para justificar a denúncia, foi formação de quadrilha.
Biografia
A insistência do presidente do PL, deputado Valdemar da Costa Neto, em exigir a demissão do único ministro de seu partido, Anderson Adauto, dos Transportes, dentro em pouco estará a servir - até por uma questão de contraponto - como atestado de permanência no cargo.
Dois pesos
O clima entre o governo do Rio de Janeiro e o Ministério da Justiça voltou a ficar péssimo. O motivo, evidente, a encantadíssima liberação dos R$ 40 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública, prometida desde a adesão do Estado ao sistema unificado de combate à violência, do governo federal.
A última justificativa para a retenção da verba é a inadimplência do Rio junto à União. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, porém, trata-se de uma mera desculpa para encobrir atritos de natureza política.
A lei que criou em 2001 o Fundo de Segurança diz que as vedações temporárias de transferências não se aplicam a verbas para segurança pública.
Além disso, no dia 17 de setembro último, a Fundação de Amparo à Pesquisa recebeu R$ 3,2 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia. Se fosse pela inadimplência, esse repasse também não poderia ter sido feito.