Daqui a dez dias, 48 horas antes do prazo final, a senadora Heloísa Helena anuncia a decisão crucial de sua vida política: ou pede desligamento do PT e concorre à Prefeitura de Maceió pelo PSTU, ou fica e confronta os poderosos do governo e do partido, pagando para ver se estão dispostos a arcar com o ônus de sua expulsão.
''Estou entre o erro político e o erro eleitoral'', diz a senadora. Na visão dela, não concorrer à prefeitura pode vir a ser o erro eleitoral. Por dois motivos: primeiro, declara-se ávida para assumir um cargo no Executivo; segundo, sabe que durante os oito anos de mandato de um senador é preciso pôr o nome em disputa para manter a proximidade com o eleitorado.
Exatamente por saber disso foi que a direção do PT adiou a decisão do Diretório Nacional sobre a expulsão de Heloísa Helena de setembro para o fim de outubro.
Como no próximo dia 3 encerra-se o prazo de filiação partidária para os candidatos às eleições municipais do ano que vem, se Heloísa Helena for expulsa depois disso, fica sem possibilidade legal de concorrer.
Daí o dilema: se quiser disputar, precisa ter filiação antes de 3 de outubro.
Ela jura que ainda não se decidiu, mas informa também que, se já tivesse tomado a decisão, não diria. Vai fazer como faz o adversário: esticar a corda ao máximo e até o último instante.
Caso opte pela prefeitura - as pesquisas mostram Heloísa Helena em primeiro lugar na preferência dos alagoanos -, ela disputará pelo PSTU. ''Agradeço muito as ofertas do Brizola e do PPS, mas é uma questão de identidade.''
A senadora sonha concorrer em chapa puro-sangue, ''bem enxutinha, onde a gente possa dizer o que quiser''. No PSTU teria apenas 40 segundos no horário gratuito.
É pouco, admite, mas suficiente para o estrago pretendido. ''Tenho a maior vontade.'' Tenta, entretanto, controlar o impulso, ser racional, pesar e medir muito bem os prós e os contras para não cometer o erro político posto por ela como contraponto ao erro eleitoral.
Não pretende, com sua decisão, acabar dando ao governo e à direção do PT um atestado de boa conduta.
''Eles precisam que eu saia para fazer o discurso de que eu queria mesmo todo o tempo deixar o PT e, se não tivesse reconhecido que estava errada, teria enfrentado o Diretório Nacional.''
A senadora não tem certeza absoluta - muita gente no partido tem trabalhado a favor dela -, mas acha que as cartas já estão devidamente marcadas. ''Eles querem é me esmagar. E eu gostaria de ver cada um naquele plenário levantando o crachá, votando a favor da expulsão e desmentindo a história de democracia interna da qual sempre nos orgulhamos.''
Se for para a disputa pelo PSTU, Heloísa Helena tem consciência de que o governo federal tudo fará - inclusive se aliar ao pior da política alagoana - para derrotá-la. Isto torna, para o tipo de personalidade dela, o projeto particularmente sedutor.
Mas instigante também é, na opinião da senadora, o confronto até o fim. ''Eles estão desmentindo o discurso de criação do PT contrário ao centralismo burocrático dos partidos de esquerda do Leste europeu. Acho que não podem fazer isso impunemente.''
A punição, pelo raciocínio dela, seria exatamente deixar o processo de expulsão prosseguir, a fim de expor a contradição. ''Estou na comissão de ética por falar, porque as reformas ainda não foram votadas no Senado.''
E, ainda que sejam nesse meio tempo, até a reunião do Diretório Nacional, nada se altera para Heloísa Helena. ''Eles querem o meu voto, mas este eu não dou. Pode custar o que for. Se for a expulsão, lamento, vou chorar, sentir saudade, mas não fico agarrada às lembranças físicas do PT.''
Arrependimentos também não estão no horizonte da senadora. Entre outros motivos porque não acha que o passo errado tenha sido dado por ela.
''Se alguém tem de se arrepender são eles, por não prestar atenção no mal que o expurgo e a intolerância fizeram à esquerda no mundo inteiro.''
O mal-amado
A natureza humana tarda mas não falha. Depois de indicar o nome do senador Luiz Otávio para o Tribunal de Contas da União ignorando a denúncia de corrupção do Ministério Público contra ele, o PMDB agora dedica-se a falar mal do senador.
Como se não tivessem saído do partido a indicação e a defesa do nome em resposta às primeiras reações.
Segundo a cúpula pemedebista, ele deveria desistir por falta de condições éticas para assumir a vaga de ministro na tribuna.
Como o Senado não falou mais do assunto depois que o nome dele foi aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos, faltando ainda o plenário, José Sarney deve estar esperando a poeira baixar.
Só para não dizer que cedeu aos reclamos externos. Enquanto isso, articula-se a indicação do secretário-geral do Senado, Raimundo Carrero, para a vaga do TCU. A opção seria neutra, não contemplando nenhum senador.