O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (PFL), não tem dúvida: o governo federal vai jogar tudo na eleição do ano que vem e, principalmente, a força da máquina estatal. Política e administrativamente falando.
Diz isso porque viveu experiência recente. A vereadora mais votada de seu partido no Rio, Rosa Fernandes, foi chamada a Brasília, onde recebeu a oferta da gerência social da Petrobrás, se deixasse o PFL. Teria também, no PT, a garantia da legenda na eleição municipal.
Não foi o único episódio, relata César Maia, que há poucos dias acertou com o PTB uma aliança em 2004, quando concorrerá à reeleição. Pois nem bem foi anunciada essa decisão, o ministro José Dirceu chamou o líder do partido na Câmara, Roberto Jefferson, e tentou desmanchar o acerto.
Mas Jefferson lembrou a Dirceu que uma coisa é a aliança nacional em torno do PT e outra coisa bem diferente são os embates locais, nos quais os vários partidos preparam-se para a disputa de 2006.
''A eleição nacional é o grande momento em que os partidos disputam não apenas a Presidência da República, mas principalmente as vagas na Câmara dos Deputados, que é o que define a força de cada um'', diz o prefeito.
Se optar pelo caminho da interferência total, o governo, na opinião de César Maia, corre o risco de nacionalizar uma eleição municipal e atrair para si, como derrotas, resultados em tese neutros. Por exemplo, o PT do Rio perder não seria novidade, mas se o Planalto interferir, arca com a derrota.
''Se o José Dirceu fez isso, imagino que outros ministros estejam fazendo o mesmo em outros Estados.''
César Maia admite. O peso da máquina governamental pode trabalhar, na maioria dos casos, a favor dos candidatos do PT. Mas leva também o Palácio do Planalto direto para o centro de um debate não necessariamente confortável.
''Além de atrapalhar muito a arrumação política da base de apoio governista no âmbito nacional.'' De acordo com a análise do prefeito do Rio, ''a interferência de cima poderá fazer com que os aliados em Brasília fiquem desconfiados e vislumbrem uma taxa de risco significativa nas suas próprias eleições em 2006''.
''O ambiente de suspeita contamina qualquer relação'', afirma o prefeito que, como oposicionista, quer mesmo é ver suas suspeitas confirmadas e as relações governistas devidamente contaminadas.
Na opinião dele, oposição, em sistema presidencialista, é obra de ataque. Nesse sentido, vê boa parte do PSDB imobilizada ''pelo equívoco de achar que precisa tocar as mesmas notas sem perceber que a melodia mudou'', e acha que o PFL não deve parar de subir o tom.
Mas, assim o partido não pode se isolar politicamente?
''Se formos imediatistas, pensando no agora, quando o governo está bem, é claro que pode haver isolamento. Mas, se pensarmos estrategicamente, veremos que o PT vai perder as condições de gerir o país quando começarem a prevalecer as suas idéias de origem. Aí, o que hoje é difícil, fazer oposição, vai ficar muito fácil.''
Os sócios da pressumida facilidade, César Maia acha que serão mesmo os tucanos - ''já reconhecem que quebraram a cara quando tentaram, em 1999, se desvincular do PFL''.
Os grandes patrocinadores da aproximação, na opinião do prefeito, são exatamente aqueles que mais ódios despertaram nos pefelistas logo após o naufrágio da candidatura de Roseana Sarney: Fernando Henrique Cardoso e José Serra.
''Serra tem ambição e isso ajudará a trazer o PSDB para a oposição.''
Professor factóide
Na escola em que o PT tenta se especializar, César Maia faz tempo é professor. É dele, inclusive, a autoria do uso do termo ''factóide'' para caracterizar a arte de criar fatos. Nem sempre consistentes.
Observando a performance do presidente da República, o prefeito vê nela uma opção pela ''escola americana''. Na qual ele mesmo se inspirou durante algum tempo. Segundo essa corrente, é preciso ganhar uma eleição por dia e, portanto, aparecer é preciso. Mas o profissionalismo é indispensável e o improviso, mortal.
A ''escola francesa'' ensina que o governante deve guardar uma certa distância, cercar-se de algum mistério. A exposição queima e a exposição excessiva causa queimadura de terceiro grau.
César Maia junta os dois ensinamentos para observar que, ao contrário do que aconselham os americanos, Lula improvisa demais. E isso pode fazê-lo passar da medida e sofrer as tais queimaduras de terceiro grau de que falam os franceses nos casos de excesso.
O prefeito lembra que nessa seara também correu sério risco: ''Eu quase desintegrei a minha imagem com aquele história de ser maluco. Por pouco não virei idiota.''