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Em pele de cordeiro


De onde menos se esperava, do PMDB, acabou saindo o fato partidário mais importante da temporada, em matéria de desdobramentos políticos.

Tratado pelo governo como aliado de segunda categoria - se muito -, o partido deu o troco ontem com a filiação do ex-governador Anthony Garotinho, da governadora do Rio de Janeiro, 15 deputados estaduais, 17 federais (12 no PMDB e cinco no PSC), 39 prefeitos e a perspectiva da disputa de poder em esfera nacional.

Para quem até outro dia estava quase mendigando um ministério em troca de votos sem garantia de entrega, realmente é uma boa subida na vida ganhar assento num dos três estados mais importantes do país, a condição de segunda maior bancada na Câmara e a adesão de um candidato que na eleição presidencial fez 15 milhões de votos a bordo da ínfima estrutura do PSB.

Caso raro de unanimidade dentro do partido. À exceção de José Sarney, que tentou até o último instante impedir a entrada de Garotinho e terminou demonstrando ao Palácio do Planalto que sua influência dentro do partido é muito menor que a pretendida, todos saíram-se muito bem atendidos.

Os governistas do PMDB mandaram o recado que precisavam ao governo e, agora, de pedintes passam a exigentes na questão do ministério.

Os oposicionistas exibiram-se mais fortes, e o grupo de Garotinho saiu do isolamento partidário para fazer política de cima de um palanque organizado no país todo.

Num primeiro momento, as relações institucionais serão fidalgas, mas não de todo risonhas e muito menos francas.

Garotinho promete dar seus votos no Congresso ao governo, mas ressalta a expressão ''em princípio''. Considerando que à vista na Câmara só existem duas votações fundamentais e uma delas é um mero segundo turno (da reforma da Previdência), convenhamos, não há grande significado prático na promessa.

Ele não sairá em campanha desde agora, inclusive porque não há razão para isso dada a distância das próximas eleições. Mas não deixará passar as oportunidades de atacar e marcar posição.

Mais ou menos como fazia Itamar Franco quando, no mesmo PMDB, ainda era formalmente um aliado de Fernando Henrique Cardoso.

Por trás das amenidades oficiais, prevalece a tensão e a desconfiança. De parte a parte.

Ao saber do fato consumado da filiação, na quinta-feira, no dia seguinte o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, telefonou para Garotinho, repassou os números que fariam do PMDB a segunda bancada da Câmara, externou seus receios e pediu colaboração.

''Estamos juntos'', respondeu Garotinho. Em seguida, ouviu um convite para um encontro em Brasília. Horas depois, no entanto, já lia nos noticiários em tempo real a versão de que era ele quem estava solicitando a conversa.

Ou seja, aquele ''juntos'', já fragilíssimo na origem, ficou ainda mais passível de adaptações futuras.

Considerando que o ex-governador tem perfeita consciência de que o Planalto trabalhou para tirá-lo do PSB e fez de tudo para isolá-lo no PDT, trata-se de uma relação onde o quesito confiança não é o ponto mais forte.

Confronto mesmo, não haverá por ora. Mas só enquanto não estiverem em jogo os projetos políticos dos adversários cujos trajes de guerra ainda escondem-se sob alvas peles de cordeiro.

Provocação

Foi o presidente Lula manifestar-se contra a reeleição nas entrevistas que deu no fim de semana, e o primeiro-secretário da Câmara, deputado Gedel Vieira Lima, prontamente desarquivou emenda constitucional propondo a extinção do direito a um segundo mandato para presidentes, governadores e prefeitos.

Na semana que vem, Gedel começa a coletar assinaturas entre os colegas, utilizando-se exatamente do argumento de que, como partido da base aliada, o PMDB deve sustentar a posição do presidente da República.

É claro que, sendo um oposicionista e entusiasmado defensor da emenda da reeleição no governo Fernando Henrique, Gedel está fazendo uma provocação política.

Diz que a emenda estava pronta há dois meses, e só se dispôs a apresentá-la agora porque sentiu-se à vontade com as declarações do presidente. ''Antes, a proposta poderia ser entendida como uma tentativa de golpe. Mas, quando o próprio presidente defende o fim da reeleição, trata-se apenas de apoiar uma tese de governo.''

Teoria esta de difícil aceitação entre prefeitos e governadores candidatos à reeleição em 2004 e 2006, respectivamente.


[20/AGO/2003]


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