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Com aparato de bravata oficial

Exacerbações de toda sorte em geral não costumam revelar-se eficientes conselheiras. Ao presidente Luiz Inácio da Silva não têm conseguido ser nem mesmo boas companheiras. Tanto no que tange à forma quanto no que diz respeito ao conteúdo.

Da excessiva informalidade à agressiva exasperação, o presidente da República já coleciona impropriedades suficientes para que alguém de bom senso no Palácio do Planalto preocupe-se com elas.

Afinal, o presidente está prometendo mais do que seria prudente. Terça-feira última mesmo candidatou-se ao ofício de salvador da Pátria. Exaltado ao ponto de desentender-se com as palavras um pouco além do habitual, Luiz Inácio da Silva anunciou de dedo em riste para si que ''alguém vai ter de salvar este país''.

Subiu o tom desde que, semanas atrás, prometeu para breve ao país a exibição de um ''espetáculo de crescimento''.

Isso sem falar nas inúmeras vezes em que já se mostrou extasiado com sua biografia de dificuldades, exaltou o fato de ser bem recebido no exterior mesmo sem falar inglês e avisou que, no devido tempo, o Brasil verá que nunca houve um presidente como ele.

Não vamos nem tecer maiores considerações a respeito do trecho do discurso em que o presidente gabou-se de ter engravidado sua mulher com eficácia própria, segundo ele, dos pernambucanos. Machismo e deselegância à parte, sobra uma questão regional a ser discutida por quem se interessa pelo tema.

Voltando à altíssima conta em que o presidente da República tem seu próprio desempenho - passado, presente e futuro -, o problema da jactância é o dia seguinte.

Tal evidência manifestou-se com exuberância no cotejo entre o que se disse na campanha eleitoral e o que se fez depois no governo. Por causa disso mesmo é que o presidente, ainda antes de vencidos seus primeiros 100 dias, explicou que bravatas só são permitidas à oposição. Governos precisam ter cuidado com o que dizem.

Exato. Na oposição, em disputas pelo poder ainda admite-se que um candidato diga que os problemas do país resultam todos da falta de ''vontade política'' e da ''insensibilidade social'', crueldade pessoal mesmo, dos adversários.

De um presidente da República, entretanto, espera-se mais prudência que a promessa de salvação nacional ou produção de espetáculos quaisquer que sejam eles.

A menos, é lógico, que o governante em questão tenha não apenas a receita do sucesso, como todos os ingredientes dela já pesados e medidos.

Qualquer coisa diferente disso pode significar o risco da impossibilidade de fazer frente à palavra empenhada. Não é adequado a nenhum governante que pretenda manter seu crédito popular em dia.

Mas soa especialmente impróprio num presidente cujos ensinamentos têm sido tão úteis ao senso comum, que leva a sério quando ele afirma que prefere ''dizer verdades duras a mentir como esses políticos aí''.

Ora, se é ele mesmo quem promete salvar o país do ''buraco'' cavado por seus antecessores e, além disso, promover um crescimento espetacular, bastando, para isso, que todos tenham ''paciência de pescador'', natural que as pessoas tomem essas palavras não como meras profecias, mas como promessas.

E promessa, já ensina o livro dos ditos populares tão em voga na República da auto-ajuda, promessa é dívida.

A voz do roto

O presidente do Senado acha que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso contribuiria mais para o país se ficasse calado.

Pois o senador José Sarney também daria grande contribuição se não usasse sua posição para arquivar comissões de inquérito e investigações do Conselho de Ética.

Às calendas

Falando em arquivamento de investigações, a Mesa do Senado havia decidido dar uma advertência pública ao senador Antonio Carlos Magalhães pelo uso, nas dependências do Congresso, de material oriundo de gravações clandestinas.

Só que nunca mais ninguém ouviu falar desta advertência. A decisão da Mesa foi publicada no Diário Oficial, mas a penalidade propriamente dita, com começo, meio e fim, não foi aplicada. A menos que o tenha sido sigilosamente.

Aliás, a Polícia Federal também não deu mais satisfações sobre o inquérito que investiga a rede de produção de escutas telefônicas ilegais e falsificação de documentos judiciais, montada na secretaria de Segurança Pública da Bahia.

[20/JUN/2003]

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