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Bem pior que a encomenda

De todos os críticos à política de juros altos, o que exibe desempenho mais inadequado é, de longe, o vice-presidente da República, José Alencar. Coerente, pois diz agora exatamente o que dizia no governo anterior, Alencar parece não se ter dado conta de que de lá para cá houve uma mudança crucial na situação: ele agora é governo, com todos os ônus e os bônus resultantes dessa condição.

Eleito apenas para substituir o titular da presidência em suas ausências e não para comandar políticas nem capitanear movimentos, a menos que receba diretamente do presidente uma tarefa específica, suas declarações têm o condão de fragilizar a posição daquele a quem deve obediência, fidelidade e, sobretudo, discrição. Notadamente quando no exercício do cargo.

Depois de passar uma semana tentando pressionar o Comitê de Política Monetária a baixar a taxa básica em termos dignos do mais radical dos radicais do PT, José Alencar pareceu cair em si quando o presidente Luiz Inácio da Silva viajou para o Peru. Produziu, então, sua melhor manifestação desde a posse: ''Nada a declarar.''

Agora, enquanto Lula diz em Genebra a única coisa que pode ser dita no momento - que os juros estão altos mas que não se promovem reduções nas taxas a poder de bravatas -, José Alencar volta a perder a noção do cargo que ocupa e, não satisfeito em usar indevidamente a cadeira presidencial para discordar, ainda o faz em termos absolutamente impróprios.

Auto-referido, afirma que na reunião anterior do Copom os juros foram mantidos onde estavam por ''pirraça'' pessoal dos técnicos contra suas reclamações. Ou seja, desqualifica a equipe presidencial com uma descortesia ímpar. Não bastasse, defende que o Banco Central adote decisões ''políticas''. Quer dizer, vai na contramão das regras adotadas mundo afora e às quais, com a proposta de autonomia para o BC, o Brasil busca se adequar.

O vice-presidente não acha que esteja criando constrangimentos ao governo, pois, segundo ele, faz parte de uma família onde considera perfeitamente normal que se tenham opiniões diferentes. De fato, divergências são normais em quaisquer grupos, sejam eles familiares, políticos ou administrativos.

Mas, em geral, quando a intenção é apenas divergir para ajudar, sem que aja no gesto nenhum resquício de disputa, o que se faz é discordar ''para dentro''. Manifestações insistentes de desagrado em tom e termos que extrapolam os limites do respeito à competência profissional da outra parte configuram-se contendas entre adversários.

Torna-se ainda mais desagradável a posição do vice-presidente, quanto mais fidalgo é o tratamento que ele recebe daqueles sobre os quais lança a suspeita de não estarem dando conta do serviço para o qual foram escolhidos.

Dizer que o Copom toma decisões pautado por ''pirraça'' é supor que o presidente da República, o ministro da Fazenda e o presidente do BC sejam também ''pirracentos''. Propor a adoção de critérios ''políticos'' na condução daquilo que se refere à moeda é apostar no retrocesso e enfraquecer as autoridades brasileiras - do presidente da República ao presidente do Banco Central, passando pelas mais expressivas lideranças governistas - que já decidiram que o modelo é o da independência e não se presta a ingerências.

Se alguém com ascendência sobre José Alencar não fizer ver a ele que sua função é exatamente delimitada pelo exercício da contenção verbal e gestual, hoje são os juros, mas amanhã o vice poderá se valer da ocupação temporária da cadeira presidencial para desautorizar outras posições do titular do cargo. Trata-se de um filme já visto, com roteiro de turbulências e final nada feliz.

Tudo pelo social

Vai ficando cada dia mais evidente que o secretário de segurança Pública e a governadora do Rio de Janeiro precipitaram-se na defesa do secretário de Esportes, Francisco de Carvalho, acusado por um tenente-coronel de interceder em favor dos traficantes do Morro da Mangueira. Agora são agentes penitenciários lotados no Presídio Bangu III que afirmam ter visto o rapaz em visita a traficantes na cadeia, entre 1997 e 1999, quando ocupava o cargo de subsecretário de Esportes.

À primeira acusação, Francisco de Carvalho respondeu que pediu apenas que os policiais não entrassem no morro no horário de entrada e saída das escolas. Agora diz que só esteve no presídio para conversar com o diretor a respeito de projetos sociais, embora tenha sido visto abraçado a um dos traficantes no pátio da cadeia.

O secretário e a governadora dizem que Chiquinho da Mangueira é vítima de uma conspiração política. Pode até ser. Fato é, no entanto, que um secretário de Estado no Rio de Janeiro tem ligações com o tráfico. Ainda que altruístas, são inequívocas.

[03/JUN/2003]

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