A bancada do PT no Senado pede 15 dias para decidir o destino da senadora Heloísa Helena. Sem querer pôr água fria na fervura de ninguém, o prazo soa algo insuficiente para o partido resolver o que não conseguiu equacionar em 23 anos de existência.
A questão transcende a conduta circunstancial deste ou daquele parlamentar, pois diz respeito mesmo é à dicotomia entre o modo petista de ser e a necessidade petista de governar.
Se as relações entre o partido e os governantes que já elegeu nunca foram mornas nem submissas quando em jogo estavam apenas administrações municipais e estaduais, não seria agora, quando da conquista do poder central pelo PT, que a paz haveria de reinar por gravidade.
Publicitários podem muito mas, como se vê pelo tamanho da complicação resultante de uma campanha feita sob o império da dubiedade deliberada, não podem tudo.
Acreditar que o espetáculo em cartaz seja fruto apenas de uma produção independente da esquerda tão anacrônica quanto minoritária no partido, é optar pelo reducionismo para facilitar a exposição de raciocínios.
Mais do que isso, é ignorar que os ecos da reação reverberam para muito além do gabinete da senadora Heloísa Helena, presa ideal, por intrépida no limite do estouvamento.
Uma declaração auto-referida sobre o câmbio, feita pelo senador Aloizio Mercadante, ou uma entrevista da professora Maria da Conceição Tavares, lançando graves acusações morais e imprecações nada fraternais sobre auxiliar direto do ministro da Fazenda, teriam, em tese, a faculdade de provocar efeitos mais consistentes.
No entanto, o governo não reage a elas talvez por sabê-las verdadeiramente danosas, caso esmiuçadas. O que se tem, aqui, é a aplicação de pesos diferentes àquilo que realmente abriga medidas distintas.
Muito mais fácil é o embate com Heloísa Helena, Luciana Genro, João Batista Babá e Lindbergh Farias, onde o espalhafato se sobrepõe ao conteúdo.
Quem haverá de discordar de um governo que pede aos seus a observância de um compromisso partidário, ainda mais se fundado numa causa vitoriosa na sociedade, a inequívoca necessidade das reformas?
Ninguém, à exceção talvez daqueles que não se sabiam meros bravateadores quando, na oposição, defendiam posições obsoletas. Iludidos, quem sabe, pela suposição de que, quando governo, suas convicções teriam o condão de modificar os fatos e alterar a realidade.
Só o principal
Entre os planos para combater o crime organizado no Rio de Janeiro, o secretário de Segurança Pública, Anthony Garotinho, pensa em obrigar presos a construir casas e confeccionar uniformes para policiais. Não para ocupá-los, mas para impingir a eles o que, na sua visão, seriam tarefas humilhantes.
Não precisa tanto. Se Garotinho conseguir mantê-los dentro dos presídios e afastados das lides criminosas, já terá livrado o poder público de uma grande e constante humilhação.
Balão de ensaio
O presidente do PSDB, José Anibal, embarcou na idéia do presidente do PFL, Jorge Bornhausen, e lançou no ar o nome de José Serra para a prefeitura de São Paulo.
Acrescentou que ainda não discutiu a questão com Serra, em temporada acadêmica nos Estados Unidos.
Considerando que José Serra dias atrás passou vários recados, via notas em jornais, dizendo que a hipótese sequer lhe passava pela cabeça, e que José Aníbal jamais falaria publicamente no assunto sem a anuência do ex-senador, a história está mesmo é com jeito de balão de ensaio.
Aos fatos
O presidente do Senado, José Sarney, qualifica de ''pura ficção'' a informação publicada aqui no domingo, de que o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, lhe cobrou os votos do PMDB no Congresso, até agora não garantidos majoritariamente.
A fim de que os fatos não sejam relegados a um segundo plano nem fiquem submissos à vontade do senador Sarney, cumpre reafirmar a veracidade da informação.
A cobrança aconteceu na semana passada, ao fim da qual José Dirceu contou a um governador do partido que o presidente do Senado e o líder do PMDB na Casa estão envolvidos numa disputa renhida para ver quem se capacita a indicar um ministro para o governo Lula.