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Agora só vale o que for escrito

A desconfiança mútua foi má conselheira na tentativa de o PT levar o PMDB para o governo e, agora, está sendo péssima companhia na abertura das negociações entre os dois partidos com vistas à manutenção do acordo pelo qual os petistas ficam com a presidência da Câmara e os pemedebistas com o comando do Senado.

Verdade seja dita, em momento algum político nenhum confiou plenamente na longevidade daquele acerto feito logo após as eleições. Pelo simples fato de que havia muito tempo e um Ministério inteiro a ser montado entre aquelas primeiras conversas e as eleições das presidências de ambas as Casas.

Da mesma forma, há ainda léguas a percorrer, antes de dormir, sob a convicção de que o combinado de hoje estará refletido no resultado de 1º de fevereiro.

Tanto é a desconfiança o que preside as relações entre PT e PMDB, que Michel Temer agora exige que os termos das negociações sejam apostos em documento escrito e assinado pelos representantes dos dois partidos.

Ou seja, está aí implícito, de parte a parte, o impulso, senão a traição, pelo menos ao jogo duplo que no oficial leva em conta as regras da etiqueta institucional, mas, no paralelo, presta contas à lógica da dissimulação.

A direção do PMDB não absorveu - nem absorverá tão cedo - a história do ''desconvite'' de última hora para que o partido ocupasse dois ministérios, e o alto comando do PT evidentemente sabe que qualquer passo em falso pode oficializar o racha entre pemedebistas.

Estes, é claro, têm muito a perder em caso de rompimento explícito - o que aconteceria, por exemplo, na hipótese de o partido formar um bloco com o PSDB e PFL.

Mas ao governo também não interessa ficar sem a ala que apoiou Fernando Henrique. A outra, dos hoje dissidentes, já apóia Lula e não é suficiente sozinha para garantir os votos de que o presidente necessita para administrar as necessidades do Executivo no cotidiano com o Poder Legislativo.

Isso, evidentemente, sem falar no quórum necessário às reformas constitucionais.

Pelo que está combinado agora, o nome do candidato pemedebista à presidência do Senado deverá ser apresentado nos últimos dias de janeiro.

Até lá, não há certeza sobre coisa alguma. A única coisa a respeito da qual não resta dúvida é que os negociadores do acordo estão sendo, a um só tempo, recíprocos e verdadeiros, quando não consideram o interlocutor confiável.

Ecos da reação

O presidente da República conferiu ao deputado Delfim Netto a honra de lhe fazer pessoalmente o convite para integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.

Não obstante declare-se, em sua nova função, disposto a ''trabalhador pelo Brasil'', Delfim Netto não é exatamente um representante de tempos futuros e esperançosos.

Ao contrário, se a dicotomia em voga é com o medo, este era o sentimento que inspirava nos cidadãos os governos autoritários dos quais Delfim foi fidelíssimo e entusiasmado servidor.

Impunemente

Bonitas não são nenhuma das cenas protagonizadas por governadores que acabaram de tomar posse, reclamando da herança de dívidas dos antecessores.

Primeiro, porque, melhor do que ninguém, é óbvio que tinham perfeito conhecimento das situações dos respectivos Estados. E, ainda assim, declararam-se ao eleitorado na posse da capacidade plena de administrar e solucionar problemas.

Não obstante essa evidência, menos edificante ainda é o fato de governantes deixarem seus cargos em flagrante dívida com a lei. No caso, a da Responsabilidade Fiscal.

Mas inexplicável mesmo é o silêncio do poder público central, da Justiça ou de quem de direito, a respeito de punições por irresponsabilidade administrativa.

Ao que consta, há sanções previstas em lei. Muito mais de acordo seria tratar o assunto neste âmbito e não na ambiência de bate-boca em casa de cômodos.

Itinerante

Depois de levar seus ministros para um périplo por algumas das regiões mais pobres do país, o presidente da República vai inaugurar o estilo itinerante de governo.

Como prometeu durante a campanha, fará reuniões periódicas com os governadores. Mas pretende encontrar-se com eles em grupos divididos por regiões.

Lula acha mais producente fazer os encontros fora de Brasília, com cor local. O primeiro, ainda sem data definida, será com os governadores de Estados da região amazônica.

[09/JAN/2003]

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