JB Online - Eleições 2002


















Informação, opinião e eleições

Assim como os campeonatos de futebol, eleições têm o poder de deixar sensibilíssimos até espíritos mais tranquilos. Se campanhas eleitorais já não abrigam bem certas racionalidades, o concurso público para presidente da República provoca um choque permanente entre o objetivo e o subjetivo.

No que diz respeito ao exercício da comunicação, os períodos pré-eleitorais prestam-se a toda sorte de confusão entre as necessidades objetivas de quem produz as notícias, opiniões ou interpretações e os desejos subjetivos dos candidatos e suas respectivas torcidas, aí incluídos eleitores e correligionários.

Qualquer coisa que se diga por mais lógica e atinente aos fatos que seja _ é tida como um inequívoco ''sinal'' de engajamento. Isso na melhor das hipóteses, porque habitualmente atira-se o autor da informação, interpretação ou opinião à vala comum dos ''vendidos''.

Não obstante o desconforto que provocam essas reações, é preciso compreendê-las como falta de treino democrático. A sociedade e os meios de comunicação no Brasil ainda não estão suficientemente familiarizados com o contraditório.

De um lado, o leitor, telespectador ou ouvinte cobra isenção, mas o faz sob a ótica de suas preferências individuais. Não raro esquecendo-se de que uma das formas mais cínicas de cristalizar desigualdades é conferir suposta igualdade ao que é diferente.

De outro, os veículos tentam escapar dessa cobrança servindo produtos pasteurizados e também muitas vezes em prejuízo da transparência de posições.

Em democracias avançadas, as empresas jornalísticas costumam definir claramente, em editoriais, suas preferências por este ou aquele candidato. Por aqui, a prática já foi mais comum.

Hoje, de tão satanizada, tornou-se exceção. É ''feio'' assumir posição. ''Bonito'' é fingir-se de morto.

Ora, tanto os cidadãos comuns como os políticos, devem se sentir muito mais tranquilos e bem servidos no quesito informação, diante do jornal ou revista que manifesta com clareza sua opinião.

Isso obriga o veículo a ser bastante mais cuidadoso no trato das notícias, uma vez que o leitor poderá muito facilmente perceber se naquela determinada publicação ou emissora, cuja posição é conhecida, está havendo ou não equanimidade nos relatos meramente informativos.

Mas como tudo por aqui se faz na base das meias verdades, nossa tendência ainda é formar um acordo tácito segundo o qual as direções de empresas jornalísticas fingem que não têm suas preferências e o público dedica-se a um jogo superficial de suspeições fazendo de conta que está entendendo tudo.

Muito melhor seria se não tivesse pudor de exercer o próprio discernimento e capacidade de diferenciar o que seja comunicação em suas várias formas, daquilo que é a manipulação de informação.

Não se aperfeiçoa a democracia criminalizando o exercício da opinião. Inclusive porque apenas a exposição nítida de posições dá condições ao leitor, ouvinte ou telespectador de perceber onde, como e quando, se localizam as desonestidades.

Estas sim é que não devem nem podem ser aceitas em hipótese alguma.

As outras, as pertencentes ao campo da transparência, dispensam manifestações de autoritarismo travestidas de cobranças à isenção. Basta que o cidadão que discorde delas passe a não consumi-las ou então exponha sua discordância com maturidade e civilidade.

O ideal mesmo é que uma pessoa razoavelmente esclarecida forme com segurança e tranquilidade seus juízos políticos a partir do contato com diferentes correntes de opinião.

Nunca é demais repetir uma obviedade, dada a resistência à liberdade de pensamento que ainda existe entre nós: pela atual Constituição comete crime não quem emite opinião, mas quem tenta cerceá-la.

Seja pelo motivo que for.

À flor da pele

Andaram mesmo esticados os nervos de Nizan Guanaes, responsável pelo marketing da campanha de José Serra. Mas o alvo da irritação do publicitário não foi o candidato como se divulgou.

Foram os políticos e o presidente Fernando Henrique. Os primeiros, porque atribuem agora o desempenho atual de Serra à estratégia de ataque a Ciro Gomes. Dizem que Nizan errou, mas quando Ciro subiu nas pesquisas, os políticos defenderam o endurecimento do jogo.

Com FH, Nizan irritou-se por causa da declaração de que diploma não era importante. Com isso, teria ajudado a desviar o foco da discussão, que era a contradição entre a exigência de diploma para funcionários em prefeituras do PT, enquanto o candidato a presidente não tem curso superior.



[29/SET/2002]

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